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Luiz Carlos Merten

13 Setembro 2011 | 13h32

Comemorei ontem à noite meu aniversário numa festa tranquila, numa pizzaria da Bela Vista, a Speranza. Isolamos uma ala, não foram tantas pessoas quanto eu esperava, mas o suficiente para encher o ambiente e nos divertirmos. Como o espaço não permitia a entrada de bateria, passistas, tudo aquilo de que gosto, o jeito foi apelar para uma solução light, mas aniversário sem música, não dá. Chamei os Trovadores Urbanos. Foi hilário. Todo mundo queria saber quem estava me fazendo a homenagem romântica. Eu! Jotabê Medeiros prometeu me desmascarar no blog dele. Quando fiz a ficha no atendimento dos Trovadores e a funcionária me perguntou para quem era a homenagem e eu respondi, ouvi-a dizer para uma Lúcia, do outro lado da linha – ‘É para ele mesmo!’  E as duas riram. Eu também rio. Selecionei duas músicas, ‘Gracias a la Vida’, porque tenho tanto a agradecer, e ‘Coração de Estudante’, porque é assim que me sinto. No pout-pourri, pedi para ser surpreendido, e com canções românticas. Os trovadores fizeram uma seleção de Roberto, Dolores, vi o Jotabê fungando ao som do Rei. 66 anos, a caminho do 67. Vamos lá! Cheguei em casa e me aguardava o DVD de ‘Thor’, enviadop pela minha querida Madalena Martins, da Paramount, com quem, por sinal, nãso falo há tempos. Gostei de ‘Thor’, independentemente de ser fiel ou não aos herói dos comics, como gostei de ‘Capitão América’, e ambos os filmes foram feito pela mesma produtora, com o mesmo perfil. Dois românticos que, no desfecho, tentam reconstituir a ponte, se é que isso será possível, para o amor interrompido. Tenho algfumas dívidas penmdentes. Tanta gente me pede pasra faslar de Joseph Losey! Vou ter de encarar o desafio, mas Losey, a quem amo, não raro é um autor – um dois raros, senão o único – que me intimida. E quero falar dessa tal Signature Pictures, que está lançando em DVD um monte de filmes importantes. ‘O Homem sem Rumo’, de King Vidor, com Kirk Douglas; ‘Rapsódia em Agosto’, de Akira Kurosawa, do qual tenho a impressão, às vezes, de ser o único admirador incondicional; e ‘La Chamada’, de Alain Cavalier, com Catherine Deneuve. Não resisto a falar imediatamente do último, lançado no Brasil, no começo dos anos 1970, e eu o vi no antigo cine Ritz, em Porto Alegre. Uma adaptação de Françoise Sagan, com a bela da tarde magnificamente vestida por Saint-Laurent. Em maio, entrevistei Cavalier em Cannes. Ele apresentava o filme talvez mais estranho da seleção, ‘Pater’, um óvni perto do qual ‘A Árvore da Vida’, de Terrence Malick, é um modelo de academismo. O próprio Cavalier e Vincent Lindon, ambos filmando-se com câmeras portáteis de vídeo, subvertem regras clássicas de poder nos sets de filmagem e a parte ficcional do filme amplia justamernte esse discurso, na medioda em que trata do diálogo de um presidente com seu assessor. Cavalier surgiu no pós-nouvelle vague, sem, se identificar com o movimento. Os primeiros filmes se destacavam por ser políticos e tratar de temas espinhosos – OAS, Guerra da Argélia. ‘Paixões e Duelo’, sempre achei o título original sugestivo – ‘Le Combat dans l’Isle’ -, ‘Terei o Direito de Matar?’, L’Insoumis. Depois, houve o tournant de ‘La Chamade’, lançado como ‘A Chamada do Amor’. Um filme comercial? Passaram-se quase 20 anos – 18 -, antes que Cavalier, com ‘Thérèse’, fincasse pé no experimentalismo, que faz dele, hoje, o corpo estranho do cinema francês. Quando falei no comercialismo de ‘La Chamade’, ele quis saber por quê eu dizia aquilo – parecia tão flagrante – e comentou que, do ponto de vista dele, o filme não difere nem um pouco de suas preocupações estilísticas e temáticas de ontem, como de hoje. Muito interessante, mas faz tempo que não vejo ‘La Chamade’. O filme está agora ao alcance da mão, em DVD. Clama por revisão. Deneuve troca o amante rico, Michel Piccoli, com quem vive na zona de conforto, para estar com o jovem Roger Van Hool. O ardor do sexo fecha os olhos da bela para todas as dificuldades, mas, de repente, elas vêm e Deneuve fica dividida. Me pergunto, sem ter revisto o filme, o que isso tem a ver com ‘Therèse’, Santa Teresa de Lisieux, que transforma sua devoção a Cristo numa vertigem sexual, onde o orgasmo, ou pelo menos o êxtase, lhe vem por meio de uma entrega espiritual absoluta. Acho esse Cavalier um enigma muito curioso. Não perderias por nada a chance de falasr com ele. Lembro-me que, naquele fim de manhã – a entrevista foi por volta do meio-dia, no estande das Unifrance -, o calor era insuportável. Saí dali e fui, meu patrão talvez não goste de saber, tomar uma taça de vinho gelado. São momentos inebriantes, ia dizer embriagadores, mas isso poderia induzir a outro sentido. Por isso pedi ontem aos Trovadores que me cantassem ontem Violeta Parra. Obrigado à vida. Ela tem me dado tanto.