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Luiz Carlos Merten

24 Maio 2009 | 07h53

CANNES – Havia colocado o titulo no post anterior, `Definitivo`, com uma interrogacaoh, e me lembrei de Jean-Pierre Leaud em `Beijos Roubados` (Les Baisers Voles), de Francois Truffaut, declarando-se a Delphine Seyrig, alias, Madame Tabard, e dizendo que ele era o amor definitivo, todos os demais eram provisorios. Naoh vi, e eh uma coisa que lamento, o documentario `Le Deux de la Vague`, sobre Truffaut e Jean-Luc Godard, programado – fora de concurso – para assinalar o cinquentenario da nouvelle vague, mas o filme foi comprado pela Imovision e Jean-Thomas Bernardini, parceiro da Unifrance no Panorama do Cinema Frances, em junho ai em Sao Paulo e no Rio (o `Estado` participa da promocaoh), bem poderia leva-lo nem que fosse para uma soh apresentacaoh, para festejar os 50 anos. Encerrada essa digressaoh inicial, volto a `Inglorious Basterds`. Existem 1001 maneiras de ver o novo Quentin Tarantino e a mais obvia eh ver o filme como a mais excitante aventura de guerra produzida pelo cinema nos ultimos tempos. Mas as `camadas`, como se diz, propiciam outras leituras e eh possivel descascar esse filme como a uma cebola. Ele eh obra de um cinefilo que discute suas preferencias, pode-se ve-lo como um `statement` sobre o cinema tyradiocional e as novas tecnologias etc, mas foi muito interessante a conversa com Eli Roth, o diretor da serie `Hostel`, que faz um dos soldados judeus que integram o pelotaoh dos `basterds` (e que dirige o filme dentro do filme, para celebrar o heroi nazista). A entrevista com Roth foi muito interessante porque, como judeu, ele cresceu ouvindo historias do Holocausto e sempre querendo, em suas fantasias, vingar-se de Hitler, que eh o que faz Tarantino, com sua historia, inspirada em `Os Doze Condenados`, sobre esses `dirty soldiers` cuja especialidade eh escalpelar nazistas. Eh curioso, nao estou dizendo que inventei o ovo, mas Tarantino naoh falou, na coletiva, em Robert Aldrich – sei disso, embora nao estivesse lah -, centrando-se na influencia que representou para ele Enzo G. Castellari. Perguntei-lhe sobre o cult de Aldrich, um de meus filmes favoritos, ele jah estava de peh, saindo da sala e voltei para retomar a conversa, para desespero da garota que jah o levava para a entrevistga seguinte. Que era, por sinal, com um grupo integrado por Elaine Guerini e ele jah entrou falando em Aldrich, como `Os Doze Condenados` foi seu ponto de partida, ao qual se superpos o spaghetti western, ah Castellari, mais do que Sergio Leone (embora ele utilize muito Ennio Morricone na trilha). Deliro, mas resolvi rever `Inglorious Basterds` agora de manhah. Sim, Enzo G. Castellari esteve aqui em Cannes, no mercado, buscando parceiros para fazer naoh sei se um remake ou sequencia do seu `Inglorious Basterds`, de 1978 (e ele foi convidado especial de Tarantino para a sessaoh de gala de seu filme no palais). O comeco eh espetacular, voces vaoh ver, ao som de `Green Leaves of Summer` – tema de `Alamo`, a versaoh de John Wayne -, com uma tensaoh programada para reproduzir o inicio de `Era Uma Vez no Oeste` (e mesmo naoh se passdando numa estacaoh de trens, como o filme de Leone). Como aventura, como tecnica, o filme tem muitos momentos de bravura, mas confesso que suas 2h30 (2h28, para ser exato) me cansam um pouco. O proprio Tarantino jah admitiu que naoh estah completamente satisfeito e poderah remontar o filme. Nesse caso, teriamos visto a versaoh de `festival` de `Inglorious Basterds`… O filme tem muitas conversas sobre cinema (Leni Riefenstahl, G.W. Pabst, Max Linder, Charles Chaplin, Daniele Darrieux etc) e termina com uma frase de efeito, na qual Tarantino se vale de um incidente da trama – que naoh vou dizer qual eh -, para fazer com que um personagem diga que aquilo eh uma obra-prima. Espero que isso os deixe mais instigados para ver o filme, mas, num certo sentido, a questaoh – provisoria, definitiva? – talvez seja essa, agora. `Inglorious Basterds` eh a obra-prima de Tarantino? Naoh creio, ainda prefiro os dois primeiros filmes dele – `Reservoir Dogs` e `Pulp Fiction` (e `Jackie Brown`, claro) -, mas entendo o culto que provoca. Quando seu nome aparece na tela – escrito e dirigido por QA -, o publico da Sala Debussy veio abaixo agora pela manhah, como havia enlouquecido na sessaoh de imprensa, durante a semana. Tarantino leva algumn premio importante? Eu naoh daria, mas, se o fizer, o juri de Isabelle Huppert vai fazer a festa dos festivaliers.