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Cultura » ‘O Visitante’, que bela surpresa!

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Luiz Carlos Merten

06 Março 2009 | 10h53

Em Paris, em janeiro, quando entrevistei Patrick Bruehl – durante os Encontros do Cinema Francês –, ele me disse que o melhor filme a que havia assistido nos últimos tempos era ‘The Visitor’, de Thomas (Tom) McCarthy, que ainda estava em cartaz na França. Assisti ontem ao filme que candidatou Richard Jenkins ao Oscar de melhor ator. A cabine era para mim, na Rain, um gelo de matar, e lá pelas tantas eu não sabia se fungava de frio (e ia me gripar) ou de emoção. Jenkins é um daqueles coadjuvantes veteranos que a gente vê em 1001 filmes, sem saber direito quem é. Contaram-me – eu não vi a série – que ele morria no primeiro episódio de ‘A Sete Palmos’ e depois ficou aparecendo em flash-back, durante a série inteira. Gostei demais de ‘O Visitante’, que estreia na sexta que vem. É possível que tenha passado no Festival do Rio e até na Mostra de São Paulo, mas eu havia perdido, caso isso seja verdade. Jenkins faz esse professor viúvo, solitário, que vai sendo empurrado pela vida. Logo no começo, ele tenta ter uma aula de piano, mas não leva jeito. Na universidade, virou um burocrata, mas isso vai mudar. Jenkins precisa ir a Nova York, onde tem um apartamento, para participar de um evento. Vai a contragosto, como tudo o que anda fazendo. De cara, descobre que o local foi sub-alugado, para um jovem músico sírio e sua namorada africana. Após o estranhamento inicial, o garoto começa a dar aulas de percussão ao vetusto professor, mas é preso pela imigração. Entra em cena, como a mãe dele, Hiam Abbass, grande atriz israelense de ascendência árabe, que apareceu em ‘Paradise Now’, ‘A Noiva Síria’, ‘Free Zone’ e ‘Lemon Tree’. Há tempos que ando de olho em Hiam. Acho-a linda, de uma beleza humana, madura, nada dessas coroas repuxadas e botoxadas que estão transformando a TV e o cinema num celeiro inesgotável da mesma cara de ETs. O diretor McCarthy discute questões políticas graves – sobre o que ocorreu com os EUA sob George W. Bush, após o 11 de Setembro. Neste sentido, o filme dele parece um desdobramento de um grande Spielberg, ‘O Terminal’ (Hiam tem um pequeno papel em ‘Munique”). O percussionista, Haaz Sleiman, é ótimo. Danai Jekesai Gurira, que faz Sainab, a senegalesa, transpira sinceridade, mas eu confesso que me amarrei na ligação de Jenkins e Hiam. Dois viúvos, solitários, separados por barreiras culturais e ele começa a retomar sua vida, a comprometer-se. É tão raro a gente ver dois personagens maduros, e dois atores tão bons, expondo a fragilidade de seus sentimentos frente às câmeras. Nada é conclusivo, no filme de Tom McCarthy. Uma indicação aqui, outra ali, vão compondo um retrato dos EUA após o ataque às torres gêmeas (e o que, tragicamente, mudou na vida norte-americana, isto é, tudo). Me emocionei demais. Fui à internet, para saber quem era o diretor. Ele é ator, fez uns ‘trocentos’ filmes (como Richard Jenkins), entre eles ‘Syriana’, que passa amanhã à meia-noite no SBT (e sobre o qual escrevi há pouco nos Filmes na TV do ‘Caderno 2’). Só para arrematar – ‘O Visitante’ me produziu uma espécie de euforia. Adoro quando sou atropelado por esses pequenos filmes, de autores pouco conhecidos (ou desconhecidos), que me desvendam novas janelas para a realidade. ‘O Visitante’ é como eu acho que deve ser um belo filme independente, não o modelo ‘Sundance’ de ‘Rio Congelado’. E que maravilhoso ator é Richard Jenkins. Arrependi-me de ter dito que o tiraria de entre os indicados para o Oscar para abrigar não me lembro quem. Jenkins poderia até ter ganhado, e não haveria do que reclamar, embora Sean Penn seja impecável em ‘Milk’, muito melhor do que o próprio filme (médio, porque um tanto convencional) de Gus Van Sant.