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O verdadeiro homem do sapato vermelho

Luiz Carlos Merten

12 Dezembro 2008 | 23h01

Não, o título deste post não tem nada a ver com a comédia de Stan Dragoti com o jovem Tom Hanks, ‘O Homem do Sapato Vermelho’ – e que era um remake de outra comédia, a francesa ‘Loiro, Alto, de Sapato Preto’, de Yves Robert. O verdadeiro homem do sapato vermelho era Van Johnson, ator norte-americano que acaba de morrer, aos 92 anos. Acho que foi meu amigo Vilmar Ledesma, ou terá sido algum comentário no blog? Alguém andou falando recentemente, e bem, de ‘A Última Vez Que Vi Paris’, que Richard Brooks adaptou de Scott Fitzgerald, com uma Elizabeth Taylor esplendorosa, creio que em 1954. Van Johnson era o jovem galã de Liz. Contratado da Metro, ele foi durante anos, nos 40 e 50, a encarnação do americano simpático e jovial, generoso e esportivo, ao mesmo tempo tímido e temerário, formando dupla com June Allyson ou Esther Williams, além de Liz Taylor, claro. Van Johnson fazia o típico americano tranqüilo e casadoiro, com quem suas ‘leading ladies’ ter a certeza de uma existência perfeitamente pequeno-burguesa, numa época em que o cinema ainda podia vender o chamado ‘sonho americano’. Ele trabalhou preferencialmente em comédias (de Richard Thorpe, Don Weiss e Charles Walters), mas tem alguns títulos de certo prestígio no currículo – o musical ‘Ziegfeld Follies’, de Vincente Minnelli, o drama de guerra ‘Battleground’ (O Preço da Glória), de William Wellman, e dois filmes de Edward Dmytryk com os quais ganhou talvez os maiores elogios por sua prestação ‘dramática’. Estou falando de ‘A Nave da Revolta’ e de ‘Pelo Amor do Meu Amor’, adaptado do romance ‘The End of the Affair’, de Graham Greene, que também inspirou o superior ‘Fim de Caso’, de Neil Jordan. Van Johnson viveu o ocaso dos anos dourados de Hollywood – e do star system que fazia a glória do cinema de estúdio, embora ele próprio não tenha sido um astro de primeira grandeza. Talvez, arrisco, o que o tenha prejudicado foi a falta de carisma ou o jeito demasiado simples de gente como a gente. Van Johnson era o anti-Brando, o anti-James Dean. Mas um título ele ostentou. Durante anos, foi considerado o homem mais bem vestido de Hollywood. E sabem o detalhe – mesmo de black-tie, Van Johnson não dispensava os sapatos vermelhos, o que explica, finalmente, o título dado ao post. Volto ao Vilmar – acho que foi ele – e me lembro que ‘A Última Vez Que Vi Paris’ não ostenta uma reputação muito boa. Richard Brooks adaptou livros e peças – de Tennessee Williams a Dostoievski, Sinclair Lewis, Joseph Conrad e Truman Capote. Às vezes foi acusado de edulcorar os grandes autores, caso de sua versão de ‘Os Irmãos Karamazov’, da qual, apesar de tudo, guardo uma bela lembrança. Brooks também foi acusado de fazer de ‘A Última Vez Que Vi Paris’ um Fitzgerald para lá de superficial. Lembro-me apenas de Elizabeth Taylor na chuva, suplicando para que Van Johnson a deixe entrar. Ele mantém a porta fechada, ela morre de pneumonia (ou o quê) e o herói brooksiano vai se dilacerar por uma segunda chance. Gostaria muito de acreditar que Vilmar está certo e o filme é bom. Por Brooks, por Liz, mas também por Van Johnson.