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O velho da porteira

Luiz Carlos Merten

12 Março 2009 | 20h00

Não tive hoje tempo de postar nada. Cheguei ao jornal louco para atender ao pedido de escrever sobre Theo Angelopoulos, mas tinha as matérias do dia, sobre as estreias de amanhã, que não pude redigir porque fui participar ontem de uma atividade na ECA/USP, falando sobre crítica de cinema para estudantes. Adoro esses encontros, mas não sei se aquela garotada de ontem não me achou cabotino, um vovô cheio de histórias, de ‘marolinhas’, como diria o Lula. A verdade é que minha história no jornalismo é mesmo feita de altos e baixos e marcada por incríveis lances de sorte que eu acho que soube aproveitar, mas que não terminam servindo de parâmetro para ninguém, até porque o jornalismo mudou muito nestes 40 anos em que venho exercendo a profissão. Depois daquela ‘conversaiada’, não voltei à redação e fui direto para o jantar de aniversário da Jussara, nossa diagramadora do ‘Caderno 2’, que, aliás, me fez hoje uma belíssima página, que acabo de concluir, sobre o livro de Donald Spoto ‘Fascinado pela Beleza’, sobre a relação patológica de Alfred Hitchcock e suas atrizes, que o mestre do suspense tratava como ‘vacas’. O certo é que Hitchcock referia-se aos atores como ‘gado’ e Grace Kelly – justamente ela, a princesa de Mônaco – foi quem radicalizou, ao escrever para ele aquela mensagem desculpando-se por não poder fazer ‘Marnie’, mas dizendo que permanecia a mais ‘devotada’ de suas vacas, ‘the most devoted of your cows’. Isso me levou a colocar na matéria o título de ‘O dono do rebanho’ e só agora me dou conta de que poderia, mas jamais faria isso, tê-la chamado de ‘O velho da porteira’, já que o tema do livro é justamente a senilidade do mestre e o o aspecto doentio e destrutivo de sua personalidade, que foram se agravando na fase final, com sua louca obsessão – foi mesmo louca – por Tippi Hedren. Espero poder redigir amanhã o post sobre Angelopoulos e suas ‘Helenas’, outro mestre e outra relação com as mulheres (e atrizes). Há dias que também venho querendo escrever alguma coisa sobre Henry King, desde que redigi, nos ‘Filmes na TV’ do ‘Estado’, o verbete sobre ‘As Neves do Kilimanjaro’, adaptado do original de Ernest Hemingway, nos anos 50. O filme passou durante a semana. Henry rei, ou o rei Henry, tinha tanto prestígio que era chamado de ‘diretor dos diretores na velha Hollywood’. Jean Tulard cita Jacques Lourcelles, seu melhor exegeta, no texto que lhe dedica no ‘Dicionário de Cinema’. Henry King seria, ou é, ‘o pintor dos homens ilustres e de certos destinos obscuros, mas excepcionais, dos quais ele adorava retraçar as vidas densas e repletas, assim transformadas pela ação, pela criatividade, pelo sentimento religioso ou pelo amor.’ Fiquei com o nome de King martelando em minha cabeça, nem weu sei direito. Talvez eu descubra se lhe dedicar um post inteiro. Tenho um interesse particular pelos westerns de Henry King, de sua obra-prima ‘Jesse James’ ao violento ‘Estigma da Crueldade’ (The Bravados), passando pelo psicológico ‘O Pistoleiro’, sendo os dois últimos interpretados por Gregory Peck, ator a quem ele ofereceu grandes papéis, que ajudaram a esculpir a persona que fez de Peck um dos maiores astros da história de Hollywood. Sempre tive a impressão de que King poderia ter dirigido ‘O Sol É para Todos’. Não sei se seria melhor do que o belo filme de Robert Mulligan, mas a grandeza do personagem – o advogado Atticus Finch – é daquelas que seduziam o velho rei.