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Luiz Carlos Merten

26 Agosto 2007 | 12h18

Ainda não li os comentários do post de ontem, mas imagino que vocês tenham tirado sarro do meu ato falho. De onde que eu tirei que Garotas de Futuro, Career Girls, do Mike Leigh, era Garotas de Programa no Brasil? Psicanálise à parte, ocorreu o que volta e meia me aflige. Estava postando num cyber café do centro, onde não há Word para salvar o texto. Havia acabado de redigir o post sobre O Ultimato Bourne quando fui salvar, o texto sumiu e não houve jeito de resgatá-lo. Enfim, redijo o post agora, embora esteja no jornal, trabalhando, e não tenha muito tempo para ficar no blog. Gostei demais do Ultimato, embora tenha de fazer, para ser honesto comigo mesmo, duas ou três observações. A primeira é meio fisiológica. Fui caminhar no Ibirapuera ontem de manhã com minha filha, o genro e a ‘neta’ – a Angel, buldogue da Lúcia. Cheguei em casa e, na corrida, me mandei para o Arteplex para ver Bourne na sessão das 14 horas, porque teria compromissos, na seqüência. Antes, passei no Dom Vito para comer, acho que almocei em 15/20 minutos. Entrei no filme e aquela desestabilidade da steadycam, somada à montagem fragmentada – a ação passa de Moscou, com a câmera correndo com Matt Damon, para Langley, na Virginia, para Londres, Paris e Turim e ainda tem aqueles flash-backs que não são muito nítidos -, tudo aquilo me deixou mareado e eu até fiquei com medo de vomitar. Gente! Teria feito história no Unibanco Arteplex. Uma coisa digna de Simpsons – já pensaram? Mas a questão é que aquela fragmentação, aquela destabilização me produziram mal-estar no começo. Depois, quando o quebra-cabeças comecou a se armar, tudo, até aquilo, passou a fazer sentido. Outra coisa que me incomodou foi um detalhe ligado à verssimilhança, não que eu vá ao cinema ver filme de ação em busca de verossimilhança, mas enfim… No recente Cassino Royale, M (Judi Dench) reclama de 007 (Daniel Craig) que ele está gastando demais e chega a ameaçar de reduzir seu cartão. E olhem que 007 tem a agência do governo inglês à qual pertence para cobrir seus gastos. O detalhe que me incomoda em O Ultimato Bourne é bobo, reconheço, mas o cara salta de um lugar a outro do mundo. Quem paga a conta? De onde ele tira dinheiro para o avião, a hospedagem e, como se diz, as pequenas despesas? Se Bourne é desmemoriado e não sabe quem é, não deve se lembrar do número do cartão de crédito e também não tem a CIA por trás para bancar suas despesas. Confesso que é bobo, eu sei, mas me incomoda. Tem outros filmes em que eu nem penso nisso, mas no Bourne a questão do dinheiro é tão central em outros personagens que isso me parece uma falha. Vamos ao que interessa. Mais até do que nos dois primeiros filmes, fica claro, agora, o procedimento estético do diretor Paul Greengrass. Bourne, até por agir na base do instinto, é o motor que impulsiona a narrativa, mas o verdadeiro conflito do Ultimato está na oposição entre Joan Allen e David Strathairn, que colocam as questões da espionagem e da instituição no mundo moderno, pós-globalizado. Ela é a grande personagem da série Bourne – e Joan, ainda por cima, é uma atriz maravilhosa. É a depositária da consciência, agindo eticamente num mundo em que os fins justificam os meios. O conflito é tanto melhor porque, se Joan é uma senhora atriz, David Strathairn também não dá mole e, após o personagem ‘à esquerda’ de Boa-Noite e Boa Sorte, dá uma guinada ‘à direita’ e, em ambos os casos, o mínimo que se pode dizer dele é que é impecável. Tenho agora de parar. Mas não se esqueçam. Às 16 horas, 4 da tarde, temos A Psicose de Valter no Festival de Curtas, integrando o programa Petrobras 1, na Sala Cinemateca.

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