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Luiz Carlos Merten

13 Novembro 2010 | 12h10

BUENOS AIRES – Dino De Laurentiis morreu em Los Angeles na quinta-feira. Com quantos anos estava? Cem? Nao, ele nao era tao velho, mas devia ter bem uns 90. De Laurentiis cursou o Centro Sperimental di Cinematografia nos anos 1940. Em 1946, no alvorecer do neo-realismo, já estava produzindo e fez “Arroz Amargo”, de Giuseppe De Santis, talvez o mais comunista dos neo-realistas da primeira hora, o que nao impedia o filme dele de possuir forte erotismo, com a revelaÇao de uma italiana coxuda que iria fazer história. De Laurentiis garfou a beldade para ele. Casou-se com Silvana Mangano – as cenas dela naquele arrozal inspiraram os delírios punheteiros, sorry, de toda uma geraÇao -e ficaram juntos até a morte da grande Silvana, em 1989. Ele produziu muitos filmes para a mulher, incluindo o episódico “As Bruxas”, mas nunca impediu que a exuberante Silvana fosse sendo “descarnada” por grandes cineastas gays que buscavam nela uma outra coisa – Visconti, Pasolini. Com elesa, Silvana ficou etérea, misteriosa. A mae de Tadzio é quase um fantasma, uma “apariçao”. Com o tempo, o nome de De Laurentiis virou sinonimo de cinema espetacular e, em parceria com Carlo Ponti, o Sr. Sophia Loren, ele fez “Guerra e Paz”, a versao de King Vidor, antes de produzir sozinho “Barrabás”, “Barbarella”, “Conan, o Bárbaro”, “Duna”, “King Kong” (a versao com Jessica Lange) e tantos outros filmes “grandes”. Alguns foram também grandes filmes, por que nao?, mas o crédito que De Laurentiis recebe na história do cinema foi por haver produzido clàssicos de Fellini nos anos 1950 (“La Strada” e “As Noites de Cabíria”) e também obras como “Ragtime”, de Milos Forman, e “Veludo Azul”, de David Lynch. Ele produziu o primeiro Hannibal Lecter e, quando o filme de Michael Mann nao fez sucesso, desistiu de prosseguir com o personagem, arrependendo-se amargamente quando “O Silencio dos Inocentes” virou o fenomeno que todo mundo sabe e até ganhou o Oscar. Dino e a filha Raffaela criaram um império audiovisual nos EUA, onde ele se estabeleceu, produzindo principalmente para TV. Nao faz muito tempo, recebeu um Oscar especial, que foi entregue por “Sir” Anthony Hopkins. Resumindo, Dino De Laurentiis foi um personagem desmesurado como os heróis, muitos trágicos, dos épicos que produzia. Mais do que qualquer outro produtor italiano (Goffredo Lombardi, o próprio Carlo Ponti), ele antecipou a internacionalizaÇao do cinema e se preparou para ela. Nao há como negar sua importancia histórica nem a de muitos dos filmes que patrocinou.