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Luiz Carlos Merten

05 Junho 2010 | 11h07

PARIS – Acho engraçado, um monte de gente comenta meus posts. Ainda ontem, encontrei Paulo Betti, que diz aque é frequentador assíduo e que me lê no jornal. Já me acostumei com a ausência de comentários, embora não saiba explicá-la, mas às vezes me decepciono. O post sobre ‘Mademoiselle Chambon’. Tive um prazer tão grande descobrindo o filme que gostaria que vocês o compartilhassem comigo (manifestando-se). Conversando com o Jean-Thomas, da Imovision, que distribui o filme de Stéphane Brizé, ele me disse que está indo muito bem. Vejam! Mas, enfim, entre os (raros) comentários, Ana pede minha opinião sobre ‘Robin Hood’, que amou (eu gostei bastante) e Raimundo esculhamba com ‘Sex and the City 2’, que, tenho de concordar com ele, é lixo puro (em embalagem de luxo). A melhorr crítica a ‘Sex 2’ correria o risco de ser ofensiva. Gays e peruas transformaram a sessão de ‘Sex 2’ num frisson permanente, inclusive – e principalmente – nas cenas em que o diretor, que não deve ser santa, supervaloriza a genitália masculina. Feitas as digressões, volto a Oliver Stone.

Ele não seria o diretor que é sem ter consciência das polêmicas que provoca. Oliver enfatizou que não faz cinema para ganhar dinheiro, mas por razões de consciência. Posso até não gostar tanto dos filmes do cara, mas há que respeitá-lo por isso. Ele diz que não ´de de esquerda nem direita, é ‘humanitarian’. Acrescenta que o público norte-americano lixa-se para a América Latina e essa indiferença vira preconceito pela forma repetida como a imprensa pró-Bush o bombardeia com informações imparciais (entre aspas). Gostei quando Stone diz que filma o que seus filhos não aprendem na escola, para alargar os horizintes deles. Ele considera a resistência de Nestor Kirchner ao FMI um ato heroico e diz que o compromisso de Hugo Chavez com seu povo é algo que gostaria de ver num dirigente norte-americano. O último, em Washington, que realmente quis mudar as coisas foi Kennedy, em 1963. Achei interessante o que Stone disse de Barack Obama. Ele quer mudar, mas o sistema é forte e choque até agora tem sido desfavorável a Mr. Obama. Stone espera que ele já se tenha conscientizado de que vai precisar de um segundo mandato, se quiser fazer uma parcela do que prometeu, e que lute para isso. De volta a Chavez, Stone disse que é um personagem tão extraordinário quanto George W. Bush. Muita gente o criticou quando ele humanizou Bush em ‘W’ – não teria sido, ou não foi, suficientemente crítico -, da mesma forma que outros, agora, o gostariam de ver encampar a tese de Chavez como palhaço. Não vão levar, diz Mr. Stone, que copnsidera Chavez um dos artífices dessa frente de presidentes latino (ou sul)-americanos que tenta retirar a Am´derica Nuestra da dependência dos EUA. Para Stone, o ‘movimiento’ é algo muito forte e importante para ser ridicularizado.

Mas a pergunta. Sempre quis fazê-la para Oliver Stone. Ele ganhou o Oscar de roteiro – por ‘Expresso da Meia-Noite’ – e duas vezes o de direção – por ‘Platoon’ e ‘Nascido em 4 de Julho’. Acho seus filmes muito bem montados. Até hoje, existe a célebre polêmica sobre a autoria de ‘Cidadão Kane’, baseada na importância  (supremacia?) do roteiro de Herman Mankiewicz sobre a direção de Orson Welles. Stanley Kubrick, pelo contrário, dizia que o cinema é montagem. E Stone? Para ele, o que é mais importante, o roteiro ou a montagem, já que se movimdenta nas duas ezxtremidades com desenvoltura? Ele respondeu que a pergunta era falsa, e concordei com ele. O roteiro é importante e os dele, Stone, em geral, escreve sozinho. Montadores, ele tem dois ou três com quem trabalha regularmente e compartilha decisões. Stone diz que o importante é o ‘processo’. O roteiro é uma base, mas ele quase repete Michelangelo Antonioni, que diz que são páginas mortas. O filme se constrói no set, nos plano, por meio dos atores e da sua relação com a câmera. Mais tarde, a montagem poderá alterar alguma coisa, mas, se o filme for ruim – mal escrito, realizado e interpretado -, não há montagem que o salve. A montagem. substancialmente, altera o ritmo – o diretor Mike Newell e o produtor Jerry Bruckheimer, de ‘O Príncipe da Pérsia’, me disseram a mesma coisa. Stone diz que o ritmo é fundamental, principalmente para quem, como ele, fazendo o cinema politrizado que faz,  busca torná-lo ‘entertaining’ para o público. Ele diz que esperava os ataques a ‘Ao Sul da Fronteira’ e, mesmo assim, se surpreendeu. As críticas ao filme foram políticas, ideológicas (como as feitas a ‘Lula, o Filho do Brasil’, mas esta é outra história). Stone diz que só respeitou a crítica de Roger Ebert, não porque seja elogiosa, mas porque o crítico sabe quem ele é, o reconhece como ‘autor’ e criticou o filme dessa petrspectiva, não apenas porque não gosta de Chavez, sente-se ofendido pelo presidente da Venezuela ou, pior ainda, tenha dev defender o ‘legado’ de Bush Jr., em nome da hegemonia norte-americana.