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Luiz Carlos Merten

29 Novembro 2010 | 09h15

Não sei nem por onde começar. Pelo princípio, sempre é bom. Saí ontem do jornal e planejei minha tarde e noite para poder assistir a ‘La Passione’, na Semana Venezia, e a ‘Mine Vaganti’, Imprevisível, na Semana Pirelli, ambas dedicadas à divulgação do cinema italiano contemporâneo. Adorei ir à Cinemateca, que apresentava uma frequência maior que a de hábito – estou falando de exibições normais, não de eventos como o encerramento da Mostra. É um dos locais mais belos de São Paulo. Cheguei lá e em vez de ‘La Passione’, de Carlo Mazzacurati, cuja história me interessou – a crise de um cineasta –, passava ‘Passione’, de John Turturro. Gostei, mesmo assim, de ter visto o documentário que o ator ítalo-americano dedicou a Nápoles e às canções napolitanas. Num conjunto de cenas, um clipe dentro do filme, ele mostra vários artistas cantando ‘O Sole Mio’. Poderia ter incluído a versão do rei Elvis, mas o registro era em italiano. Entre os que cantavam, estava o jovem Massimo Ranieri, que também apareceu, em outro momento, cantando/interpretando, como se fosse uma peça dramática, uma canção do príncipe Antonio De Curtis, que passou à história como Totò e permanece como uma das lendas da representação (humorística, mas não apenas) no cinema. Olhando Ranieri na tela me vieram as imagens de um de meus prazeres ‘inconfessáveis’, Mauro Bolognini. Durante muito tempo ele foi, no cinema italiano, meu vício mais secreto. Eu adorava os melodramas mórbidos de Bolognini, principalmente os estrelados por Claudia Cardinale (‘Caminho Amargo’ e ‘Desejo Que Atormenta’), mas ele era, para os críticos da minha geração, o sub e até o anti-Visconti. Os méritos de ‘A Longa Noite de Loucuras’ (La Notte Brava), ‘O Belo Antônio’ e ‘Um Dia de Enlouquecer’ eram atribuídos ao roteirista Pier Paolo Pasolini e eu nunca encontrei quem, como eu, gostasse tanto de ‘A Casa Intolerante’ (Arrangiatevi). Clássicos inteiros desapareceram do meu imaginário, mas me lembrarei para sempre do discurso final de Laura Adani, fazendo uma banana para os homens que não cessam de bater à porta de sua casa, onde antes havia um bordel. ‘Arranjam-se!’. Agora, aquela era uma casa decente e ela não ia arredar pé dali. Me emociono só de pensar nessa belíssima comédia, culminação de uma fase (‘Os Namoros de Marisa’ e ‘Os Jovens Maridos’), antes que Bolognini desse sua guinada para o drama e o melodrama. Pois bem, por volta de 1970, o diretor fez dois filmes sucessivos com Massimo Ranieri, transformando o cantor em ator (e bom). ‘Metello’ e ‘Bubu de Montparnasse’. Nunca vi o segundo, mas o primeiro, sobre um operário, surgiu no refluxo de Maio de 68, de cujos escombros sairia o surto terrorista que marcaria boa parte, senão toda a década de 1970. O filme de Bolognini era sobre os revezes da classe trabalhadora e a sua persistente – ‘trabalhador, profissão esperança’ – crença no futuro. Massimo Ranieri cantava ‘O Sole Mio’ no filme de Turturro e eu revia mentalmente ‘Metello’, Octavia Piccolo e ele. Terminei gostando do filme de John Turturro, que passou fora de concurso em Veneza, em setembro. É o filme da ‘italianidade’ do ator, bem interessante. Dali, corri para o Shopping Paulista, para rever o filme de Ferzan Ozpetek, mas, sei lá porquê, ‘Mine Vaganti’ foi substituído por ‘Baciami Ancora’, de Gabriele Mucino. Digamos que foram atropelos demais para um só dia de cinema italiano. Mas não me queixo. Depois da entrevista com Kim Rossi Stuart – feita no italiano que aprendi vendo filmes –, estava louco para curtir a musicalidade da língua. O filme de John Turturro era sobre isso. Não fosse o engano da programação do jornal, muito provavelmente não o teria visto.