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Cultura » O sol já está brilhando

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Luiz Carlos Merten

03 Outubro 2006 | 11h35

Foi muito bonita a sessão de ontem à noite de Proibido Proibir, no Cine Palácio, que abriga a mostra competitiva de ficção do Festival do Rio 2006. Já havia mediado o debate com o Durán, à tarde, na tenda da Cinelândia, mas não houve clima para fazer uma pergunta que me interessava – ele viu Jules e Jim, do Truffaut? A pergunta procede porque Proibido Proibir conta uma história de amizade no limite do triângulo amoroso. Caio Blat e Alexandre Rodrigues amam Maria Flor, ela vai corresponder ao amor carnal de um, mas a amizade é pelos dois. O filme termina muito bem, ao som de Juízo Final, do Nelson Sargento. O sol/há de brilhar mais uma vez/a luz/há de chegar aos corações. É uma das minhas músicas preferidas na MPB. Já passei por muitos túneis na minha vida, pessoal e pública, a íntima e a política, mas sempre tive essa esperança de que o sol tem de brilhar. Durán me disse que tinha 22/23 anos quando viu o filme do Truffaut pela primeira vez. Gostou, mas não o marcou. E ele diz – Truffaut não inventou o triângulo amoroso no cinema. O dele não é nem um triângulo de amor, é de amizade. O trio é unido, enfrenta a violência do mundo. Existem momentos de violência policial – basta ser negro e estar próximo da favela para ser suspeito de crime – que parecem a ficcionalização dos depoimentos dos rapazes do Afro-Reggae de Nenhum Motivo Explica a Guerra, o documentário de Cacá Diegues e Rafael Dragaud. Acho que está sendo uma grande Première Brasil. O documentário sobre Cartola, o filme do Cao Hamburger, O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, a transgressão do Heitor Dhalia, O Cheiro do Ralo, a emoção do Durán, Proibido Proibir, estão sendo meus filmes favoritos, mas tem vários outros de que gosto. Duran fez um filme sobre jovens universitártios do Fundão, na Zona Norte. Como ele diz, fez seu filme para desmentir a tese de que os jovens são alienados, volta e meia evocada com a maior impunidade. Toda geração tem seus alienados. A de 68 também tinha, ou será que vamos fantasiar dizendo que éramos todos revolucionários naquele maio? Durán fez um filme lindo, que dialoga com os do Cacá, O Maior Amor do Mundo e Nenhum Motivo Explica a Guerra. O sol há de brilhar de novo, sim. Já está brilhando sobre essa bela safra do cinema brasileiro da qual a Première Brasil, no Festival do Rio 2006, é a gloriosa vitrine.