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Cultura » O sol há de brilhar

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Luiz Carlos Merten

25 Fevereiro 2011 | 08h36

Vivi ontem momentos de euforia e depressão. Havia acrescentado o post sobre os 50 anos de Dib Carneiro Neto e, à tarde, vi o meu amigo ser demitido, prova de que a competência nem sempre é admitida e pode até ser punida no sistema corporativo. Para entender como isso funciona, o filme ‘A Condição Humana’, de Nicolas Klotz, pode ser uma boa ferramenta, embora a canalha daquela revista, vocês sabem qual, deva achar que se trata de ranço esquerdista, inadmissível no mundo ‘moderno’. O cinema me salvou diversas vezes durante o dia de ontem. Pela manhã, havia redigido a entrevista com Lee Chang-dong, autor de ‘Poesia’, feita no ano passado, em Cannes. Gostei demais do filme, que foi tema de minha conversa com Michel Ciment, quando o crítico de ‘Positif’ veio ser jurado da Mostra, no ano passado. Ao contrário de ‘Cahiers’, sua arquirrival, que apostava em ‘Tio Boomee’, de Apichatpong Weerasethakul, ‘Positif’ preferia ‘Poesia’ para a Palma de Ouro. O filme é maravilhoso. Baseia-se numa história real, sobre estudante que foi estuprada por colegas e se matou. Só que Lee Chang-dong buscou um viés bem diferenciado para contar essa história, mais de acordo com seu filme anterior, ‘Secret Sunshine’, que havia ganhado o prêmio de atriz em Cannes, acho que em 2007. Era sobre uma mulher que perdia o marido, depois o filho, aderia à religião e descobria, no limite, que mais importante do que o encontro com Deus – e talvez até como condição para ele – era o encontro consigo mesma. Agora, ele chega ao estupro pelo viés da avó de um dos envolvidos que também vive uma experiência transformadora. Na cena inicial, ela descobre que está com Alzheimer e reage se inscrevendo num curso de poesia. Chang-dong, além de diretor e roteirista – o filme ganhou o prêmio de roteiro em Cannes -, é escritor e foi, como Gilberto Gil no Brasil, ministro da Cultura da Coreia do Sul. Ele me contou como, após a experiência do ministério, voltou ao cinema com prudência e tentou contar a história de ‘Secret Sunshine’ da forma mais simples possível. Ele queria a mesma simplicidade em ‘Poesia’, mas os personagens e as situações terminaram conferindo complexidade ao filme e havia a questão da poesia, que tende a ser abstrata, sobre coisas que a gente não vê (às vezes porque não quer) e Lee Chang-dong achou que seria interessante trabalhar com isso num meio concreto e visual como o cinema. Em pleno fim de semana do Oscar, ‘Poesia’ vem nos lembrar que existe um cinema alternativo ao hegemônico (Hollywood) e, vou contar para vocês – eu e o meu número ‘se o Oscar fosse honesto’ -, Yun Jeong-hie, que faz a avó no filme de Chang-dong, teria de, pelo menos, estar entre as indicadas para melhor atriz (com a Giovanna, aleluia, acertei o nome, Mezzogiorno, de ‘Vincere’). Prosseguindo com meus altos e baixos, fui à cabine da Sony assistir a um filme inominável, para poder fazer uma entrevista por telefone. A atriz me interessava – está em ‘Machete’ -, mas o novo filme dela é o ó. Mesmo assim, valeu a pena porque, ao chegar, rolava outra cabine, eu me infiltrei, discretamente, e vi, tã-tã-tã, um pedaço de ‘Xingu’, antes que me expulsassem da sala. Vi cenas de um cerimonial indígena, uma escapada de João Miguel com uma índia na floresta. Gostei do que vi e, se já estava curioso pelo filme, minha ansiedade aumentou. As cenas do cerimonial dos índios me fizeram lembrar as da sinagoga em ‘O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias’, também de Cao Hamburger. Me lembrei da emoção que foi ver aquelas imagens no Festival de Berlim – emoção minha, que pensei em Hitler e na solução final, e eles, os nazistas, não conseguiram. O canto judaico ecoou no Palast com ‘O Ano’. Não teria ecoado sob um eventual Reich. Isso, de alguma forma, me reconciliou comigo mesmo. ‘No pasarán’. Nunca passam. Teria de contar uma história muito comprida, mas, nos anos 1970, vivi um momento difícil, sentia-me injustiçado, traído e o escambau. Fui parar num hospital, o das Clínicas, em Porto. Acho que nunca me senti pior na minha vida.  E aí, num domingo – fiquei mais de um mês internado -, o sol entrou pela janela e, naquele momento, juro!, começou a tocar no rádio do meu companheiro de quarto (o cara não sobreviveu), ‘Juízo Final’. Nelson Cavaquinho salvou minha vida. ‘O sol/há de brilhar mais uma vez/a luz/ há de chegar aos corações/Do mal, será queimada a semente/E o amor, será eterno novamente.’  Renasci naquele dia, naquela hora. Espero que meu amigo Dib renasça nos novos desafios que a vida propõe para ele.