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Luiz Carlos Merten

02 Setembro 2007 | 13h42

Confesso que tenho um carinho muito grande por Robert Mulligan, que pertence a uma geração intermediária do cinema americano, aquela que veio depois da de Aldrich, Brooks, Fuller, Mann e Ray, nos anos 40 e 50, e antes da de Coppola, Pollack e Scorsese, nos anos 60 e 70. Mulligan veio da TV (como John Frankenheimer e Sidney Lumet) e estreou com um filme bem recebido, Vencendo o Medo, em 1957, mas logo em seguida parecia estar virando um faz-tudo em Hollywood (A Taverna das Ilusões Perdidas, O Grande Impostor, Quando Setembro Vier, Labirinto das Paixões, todos anódinos, quando não ruins). Salvou-o a parceria com o produtor, que depois virou diretor, Alan Pakula. Foram diversos filmes, ao longo dos anos 60, esculpindo heróis, na maioria das vezes, éticos e solitários – solitários porque éticos –, o que dificulta sua integração à sociedade americana. O Sol É para Todos, O Preço de Um Prazer, O Gênio do Mal, À Procura do Destino, Subindo por Onde Se Desce. São filmes urbanos,. com defeitos de construção, mas eu adoro o Gregory Peck como Atticus Finch, a Sandy Dennis como a professora naquela escola barra-pesada de Nova York (Subindo…) ou a Natalie Wood como a estrelinha Daisy Clover, declarando guerra a Hollywood (À Procura…). E, então, em 1969, algo se passou. Mulligan, diretor de pequenos filmes, de pequenos personagens, fez três filmes de gêneros que são os maiores de sua carreira – o western A Noite da Emboscada (The Stalking Moon), o romântico Houve uma Vez Um Verão (Summer of 42) e o terrorífico The Other (A Inocente Face do Terror), que é o filme mais perturbador sobre gêmeos, que já vi. Depois desse ápice, Mulligan descambou. Confesso que me poupei de ver Meu Adorável Fantasma, seu remake de Dona Flor, com Sally Field no papel de Sônia Braga – todo mundo falava tão mal que não quis conferir -, decepcionei-me com Clara’s Heart, apesar de Whoopi Goldberg no papel da babá jamaicana, mas me reconciliei com Mulligan, por uma última vez, com seu belo No Mundo da Lua, de 1991. Foi Mulligan quem lançou Reese Whitterpoon, como a garota de 14 anos que se apaixona por um rapaz mais velho em Louisiana, em 1957 – o ano em que ele estava virando diretor de cinema –, mas o cara prefere sua irmã mais velha. Era um filme tão bonito sobre a perda das ilusões, sobre o amadurecimento. Mulligan teve uma trajetória irregular, mas o que ele me deu de bom supera, e muito, seus erros. Ah, sim. Vocês podem ler o livro (O Sol É para Todos, da Cia. das Letras) e ver o filme (lançado em DVD). Garanto que vão gostar.