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Luiz Carlos Merten

02 Setembro 2007 | 12h48

Tenho sempre de estar lendo alguma coisa. Agora mesmo, estou lendo o novo livro de José Carlos Avellar, O Chão do Palavra – Cinema e Literatura no Brasil, que faz uma abordagem muito rica do tema, além de ser escrito numa progressão dramática, o que permite que o livro ensaístico possa ser lido quase como um romance. Está sendo muito enriquecedor – confesso que Avellar é um dos raros caras que tenho paciência de ler e que sinto que me acrescentam alguma coisa, em matéria de cinema, no Brasil. Enfim, leio O Chão da Palavra, mas alterno com uma ficção. Fiquei indeciso entre duas, Maldição em Família, policial de Dashiell Hammet, que já estava quase iniciando, quando descobri, debaixo da pilha na minha cabeceira, O Sol É para Todos, de Harper Lee. Deixei a Maldição para depois e embarquei no livro que deu origem ao filme de Robert Mulligan, no começo dos anos 60. Estou achando muito bonito. Harper Lee escreve com o que parece ser singeleza, mas na verdade é um exercício muito elaborado, porque o livro é contado do ângulo de uma criança, um dos dois filhos do advogado Atticus Finch, que no filme era interpretado por Gregory Peck. Vamos por partes, como diria o esquartejador. Harper Lee foi a amiga de infância que acompanhou Truman Capote na idade adulta, inclusive na fase em que ele escreveu À Sangue-Frio. Nunca vi uma foto da Harper Lee, ou se vi esqueci-me. Não quis nem olhar a orelha do livro, que talvez tenha uma, porque, para mim, agora, ela tem a cara de Catherine Keener, que fazia o papel em Capote, de Bennett Miller. Philip Seymour Hoffman era tão parecido, até mesmo fisicamente, com Capote, no filme, que eu não posso acreditar que Miller, tão fiel por um lado, ia escolher uma atriz que não tivesse nenhuma semelhança com Harper. Os dois, Capote e ela, vieram da mesma cidadezinha do Sul dos EUA. Foram para Nova York, ela nos anos 50. Harper Lee escreveu O Sol É para Todos (To Kill a Mockingbird), que ganhou o Prêmio Pulitzer e virou filme, anos antes que Capote, numa guinada em sua carreira de escritor, também fosse premiado com seu romance de não ficção, que virou filme de Richard Brooks. O Sol É para Todos é considerado um dos maiores romances da literatura dos EUA. Sua simplicidade é enganosa. As memórias infantis começam tênues – as brincadeiras em casa, na escola, as lembranças de um mundo que parece perdido, aquele Sul decadente em que senhores arruinados ainda vivem dos rendimentos de suas plantações de algodão e ex-escravos permanecem numa condição sub-humana, sem que seus direitos civis obtenham reconhecimento. Não falta nem o fantasma que habita a casa ao lado da de Jem e Stout Fincher, os filhos de Atticus Finch. Ele é advogado e vai defender um negro acusado de matar uma branca. O que está em discussão no livro é a construção da cidadania e da ética – o legado, como diria Paulo Morelli, em outra história de paternidade, a de Cidade dos Homens, que estreou na sexta. Recomendo a leitura de O Sol É para Todos. Mas o post terá desdobramento, você vai ver.