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Cultura » O sol de Ana Maria e Rondeau

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Luiz Carlos Merten

23 Setembro 2006 | 11h25

Deu confusão na abertura da Première Brasil, ontem à noite, no Cine Palácio, aqui no Festival do Rio. A sessão começou com quase meia-hora de atraso, o que é desagradável, mas normal. O problema, de verdade, foi quando começou a projeção e havia um problema de janela (ou de lente) que levou o curta Yansan a ser interrompido diversas vezes. Yansan conta uma história de orixás, o triângulo formado pela senhora das águas (e do título), Ogum e Oxóssi. O filme é de um grafismo maravilhoso, inspirado no visual dos mangás e com alta voltagem erótica. Foi um belo aperitivo para o longa 1972, de Ana Maria Bahiana e José Emílio Rondeau, exibido a seguir. A trama de amor sobre a menina rica e o garoto suburbano parece ter muito de autobiográfico do casal de diretores, embora, sinceramente, ainda não tenha falado com eles e, portanto, não possa garantir que seja mesmo a história ficcionalizada dos dois. Esteticamente, parece um episódio esticado de Malhação, com novos personagens e a mesma simplificação de figuras e ambientes. Isso posto, pode parecer que é ruim, mas não é. O filme tem um visual meio estilizado, o que faz com que possua um clima meio onírico. Lembra vagamente Os Sonhadores, embora tenha em comum com o filme famoso de Bernardo Bertolucci apenas os temas da juventude e da contestação pelo amor – e pelo rock. A idéia da revista libertária de música e comportamento também remete a Sol – Caminhando contra o Vento, documentário de Tetê Moraes e Miriam Alencar, embora a pegada de Ana Maria e Rondeau seja mais leve. Dandara Guerra, filha de Ruy Guerra e Cláudia Ohana, e Rafael Rocha formam o par central. Os dois têm química e Bem Gil, filho do ministro Gil, é o melhor amigo dele. E há um quarto elemento importante na trama – Tony Tornado como um militar renegado que serve de anteparo para o personagem de Rafael, livrando-o de não poucas atribulações. O milico revoltado com os rumos do que se pretendia uma revolução e virou ditadura é o nó górdio do filme e, com certeza, deve dar o que falar. Tornado, de qualquer maneira, segura a onda com sua presença imponente.