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Luiz Carlos Merten

04 Março 2009 | 11h40

A pré-estréia de ‘O Menino da Porteira’ foi até a meia-noite e até chegar em casa já estava morto de cansaço, com o desgaste do calorzão de ontem. Não tinha condições de postar o que quer que fosse, muito menos sobre John Ford, porque sobre ele, um dos meus ídolos, não consigo ser sucinto. Caí na cama e desmaiei. Hoje pela manhã, antes de sair, fui procurar o livro de Peter Bogdanovich sobre John Ford, com a entrevista que o crítico e cineasta fez com o mestre. Bogdanovich analisa filme a filme, conversando com Ford, não sobre todos, mas quase. No tópico sobre ‘O Sol Brilha na Imensidão’, ele observa que tem a impressão de que Ford fez este filme e ‘Caravana de Bravos’ (Wagon Master), de 1950, para seu prazer pessoal, mais do que quaisquer outros de sua carreira. Ford concorda. Ele conta que muitas vezes, beneficiando-se do sucesso de filmes grandes, ele aproveitava para fazer filmes pequenos mas que lhe batiam fundo. Ele sabia que seus filmes do coração não iam dar dinheiro, mas como ele observa, não machucavam ninguém. Pagavam-se, não davam lucro, mas aí ele fazia outro filme de sucesso e ficava zerado. O próprio Ford admite que tinha um carinho especial por ‘O Sol…’ Eu disse ontem que se trata de um remake de ‘Judge Priest’, de 1934, mas não é exatamente verdade. O filme retoma o personagem que havia sido interpretado por Will Rogers – a obra-prima de Ford com o lendário ator foi ‘Steamboat Round the Bend’, um ano depois, em 1935, mas essa é outra história. Ford é chamado de Homero de Hollywood por suas odisséias de grupos, que lhe interessavam mais que os indivíduos – e isso, apesar de seu clássico número um, para mim, ser a tragédia de um individualista, o Ethan Edwards de ‘Rastros de Ódio’ (The Searchers), de 1956. Ford reverenciava o passado como território da criação de mitos, mas o passado que ele (re)cria não é estático e ele, também, com frequência submete os mitos a duras revisões. ‘O Sol…’ passa-se em Kentucky, no começo do século passado. A cidadezinha ainda vive sob os efeitos, ou as consequências da Guerra Civil norte-americana. Faz tempo que não (re)vejo ‘O Sol…’, mas tem um detalhe muito interessante, e divertido, que eu espero não estar enganado. Tem uma bandeira, acho que confederada, uma relíquia, que vive sendo roubada por associações de veteranos que brigam entre si. O filme conta a história dessa comunidade que quer expulsar uma ‘pecadora’, que descende de um militar sob cujas ordens muita gente serviu, e que também acusa (a comunidade) um negro por um crime que ele não cometeu. O caso vai parar no tribunal, onde o juiz Priest, interpretado por Charles Winninger, vai restabelecer o primado da Justiça, dando voz aos acusados (e cassando a de seus acusadores). O grande tema da obra de Ford sempre foi o embate entre civilização e barbárie, ou sobre quanto custa construir uma civilização. Há um teatro da Justiça que o juiz Priest domina, como o próprio diretor domina seu ofício. Estou escrevendo e morrendo de vontade de (re)ver o filme de Ford. Onde foi mesmo que passou? Na TV paga?