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Cultura » O sargento negro de Ford

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Luiz Carlos Merten

22 Junho 2010 | 11h56

Volto a John Ford. ‘Audazes e Malditos’ passa hoje, à meia-noite, no festival que o TCM dedica ao grande diretor e não posso perder a oportunidade, mas antes a Copa. Domingo, no meio daquela multidão, no Anhangabaú, e olhando para o telão, assaltou-me uma dúvida. Quem está fazendo o documentário desta Copa? Alguém me informa, por favor? Outra coisa. No telão, enorme, volta e meia eu me desligava do espetáculo futebolístico para apreciar a técnica. A beleza de certos movimentos de câmera, a intimidade (da câmera) com os jogadores, a montagem, que show! Acho que será preciso fazer uma crítica da transmissão como espetáculo audiovisual. E, agora, John Ford. Tenho, sempre tive, um carinho muito grande por ‘Seargent Rutledge’, que Ford dirigiu em 1960, entre ‘Marcha de Heróis’ e ‘Terra Bruta’. Toda obra do grande diretor é uma reflexão sobre os limites entre organização social e barbárie, e também sobre quanto custa construir uma civilização. Assim como demorou para fazer seu épico (fúnebre) sobre os índios – ‘Crepúsculo de Uma Raça’ –, o mestre também acalentou durante anos o projeto de um filme sobre os negros na Cavalaria. Há 50 anos (exatos), o racismo ainda era um tema de alta voltagem nos EUA. Vários filmes foram feitos ao longo dos anos 1940 e 50. No de Ford, um sargento é levado a corte marcial, acusado de estupro e morte de uma garota branca. Woody Strode é quem faz o papel. No mesmo ano, foi o gladiador, Draba, que poupa Spartacus na arena, no épico de Stanley Kubrick. Woody Strode tinha um physique du role impressionante. Sua máscara de ator não era menos forte – não por acaso, um autor intimista como Valerio Zurlini fez dele o protagonista de ‘Sentado à Sua Direita’. No filme de Ford, Jeffrey Hunter faz o oficial que defende o acusado. O formato do filme é curioso, como se o western fosse ao tribunal. E a narrativa se constrói por meio de flash-backs, antecipando ‘O Homem Que Matou o Facínora’, dois anos mais tarde. Assinalo um dado que me parece fundamental. Em todos aqueles filmes antirracistas de Hollywood, a questão do sexo raramente era abordada, e menos ainda de forma direta. Otto Preminger colocou o racismo em discussão sem fazer dele o tema de ‘Carmem Jones’, e o sexo era certamente visceral na personagem adaptada de Rodgers e Hammerstein (e que já era uma transposição de Merimée e Bizet). O sexo é decisivo em ‘Audazes e Malditos’, eu diria que é o filme de Ford em que o assunto é mais premdente. Estamos longe, aqui, da sexualidade saudável de ‘Depois do Vendaval’ e mais próximos de ‘Pinky’, O Que a Carne Herda, que Ford havia iniciado em 1949, antes de ser substituído por Elia Kazan. Já que o sargento Rutledge é acusado de estupro, Ford encara a forma como ele provoca a sexualidadee das mulheres ao redor. Woody Strode exibe o torso sem camisa, meio século antes do Hugh Jackman de ‘Austrália’. Naquela época, a provocação era imensa e existe esse plano em que Constance Towers fica perturbada diante do espetáculo que o macho negro lhe oferece. Crueza assim acho que só vi depois em ‘Mandingo’, de Richard Fleischer, em 1975, naquele plano em que a colona branca escolhe o escravo mais potente pensando na sua satisfação sexual. O filme de Fleischer foi estraçalhado pelo estúdio (a Fox), mas até o fim da vida o cineasta defendeu sua adaptação do primeiro da série de livros de Kyle Onstott, dizendo que o sensacionalismo estava nos olhos de quem via. Ford podia ser um conservador, mas com certeza não era um puritano. Em ‘Terra Bruta’, a volta de Linda Crystal para a comunidade branca provoca frisson, depois que ela é resgatada de entre os índios (tendo sido mulher justamente do chefe interpretado por… Woody Strode). As mulheres dos pioneiros riem nervosamente em ambos os filmes. Ford detestava a hipocrisia. Embora o suspense não seja seu objetivo, a revelação sobre quem estuprou – e matou – poderá ser surpreendente (foi, para mim, quando vi o filme pela primeira vez). Assim como o sexo, a linguagem é forte. Woody Strode é chamado de ‘black’, ‘negro’, ‘nigger’ e o tom ofensivo varia. Mesmo não sendo uma obra-prima, ‘Audazes e Malditos’ é um Ford que recomendo. O velho não era mole, não.