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Luiz Carlos Merten

15 Março 2009 | 19h02

Estou de volta ao Arteplex, onde assisti ontem a ‘O Sal da Terra’. Vou postar rapidinho porque não tenho muito tempo. Daqui a pouco começa a sessão de ‘O Visitante’ e eu cá estou para (re)ver o ótimo filme de Tom McCarthy com Richard Jenkins e Hiam Abbass, a mais bela coroa (com todo respeito) do cinema atual. Quero dizer duas ou três coisas sobre ‘O Sal da Terra’. Em primeiro lugar, não sabia que existia um European Spiritual Film Festival, mas ele não apenas existe como – nos informa o cartaz de ‘O Sal da Terra’ – foi vencido pelo filme de Elói Pires Ferreira. Não sei nem quem é Elói. Muito prazer. Éramos poucos, ontem, na sessão das 18h30. Quando entrei na sala, éramos uma senhora e eu. Quando o filme começou, havia entrado um grupo de seis pessoas, mais um gato pingado. Menos de dez espectadores, no total. Quantidade não tem muito – ou nada – a ver com qualidade e quero dizer que gostei do filme, por maiores restrições que possa fazer. A história do padre caminhoneiro, tratada ficcionalmente, permitiria, quem sabe, um recorte mais denso e profundo, mas confesso que a sinceridade e honestidade do padre me tocaram e o ator que faz o papel, Édson Rocha, é muito bom. Engraçado como, na mesma semana, dois padres me tocaram. O do filme brasileiro e o ‘irlandês’ do filme de Clint Eastwood, ‘Gran Torino’. Mal comparando, gostei bem mais de ‘O Sal da Terra’ do que de ‘O Menino da Porteira’, naquilo que eles têm de comum, que é um recorte sobre o Brasil interiorano (e tanto o religioso quanto o vaqueiro vivem na estrada, sem criar raízes). Já disse que ‘O Menino’ não me acrescentou muita coisa, para não dizer que não acrescentou nada, e o filme do padre me deixou com algumas perguntas sobre uma pastoral rodoviária, sobre a exclusão social neste Brasilzão e sobre o sentido das participação social e comunitária, em oposição àqueles que se mantêm à margem. O filme começa e termina com o andarilho, a quem o padre estende a mão, no fim, mas ele não quer participar (nem comprometer-se). É mais ou menos como se o filme perguntasse – e você, e nós? Como eu não consigo pensar o filme isoladamente e vivo lançando pontes – devia ter sido engenheiro, quem sabe -, ‘O Sal da Terra’ me fez pensar na espiritualidade e no sacrifício do filme de Clint (pretendo voltar ao assunto) e também no isolamento do professor de ‘O Visitante’. Para minha surpresa, ‘O Sal da Terra’ tem o que me pareceu uma raridade – o ‘incidente’ com o caminhão que resulta no atropelamento é bem filmado – e olhem que cenas assim tendem a ser ruins no cinema e na TV brasileiros -, mas o que mais gostei foi da trilha, que começa com o ‘Kyrie’, da ‘Misa Criolla’ de Ariel Ramirez, prossegue com um Vivaldi espetacular e inclui alguns sertanejos que, para o meu gosto pessoal, bateram mais do que os do ‘Menino da Porteira’. Vou parar de falar mal do filme de Jeremias Moreira porque senão vai parecer que é implicância. Não é. Não vou dizer também que ‘O Sal da Terra’ é bom, mas gostei de ver o filme.

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