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O sagrado e o profano

Luiz Carlos Merten

16 Abril 2017 | 13h25

OURO PRETO – Cá continuo, em Minas, aonde na sexta assisti à procissão do ‘descedimento da cruz’. Confesso que a palavra foi novidade para mim. A descida das cruz. A tradicional procissão do Senhor Morto. Não estamos aqui naquelas manifestações de flagelo que o cinema e, agora, a internet mostram sobre a Semana Santa nas Filipinas. É algo mais no espírito sevilhano. Quem fez o sermão foi o monsenhor da paróquia de Chico Rei. Comparou Cristo na cruz ao povo brasileiro, os dois ladrões ao Congresso – a Câmara e o Senado – e não poupou o Judiciário. Assim como a multidão escolheu Barrabás a Jesus, induzida pelo tribunal que o condenou, assim o Judiciário – mas quem, exatamente? O Supremo ou o juiz Sérgio Moro? – também tem induzido o povo brasileiro a julgamentos equivocados. Como Monsenhor não esclareceu, embora concordando com ele quanto ao genérico fiquei em dúvida quanto ao particular, quem ele estava querendo absolver. Mas foi tudo impressionante. Estamos aqui ao lado da Igreja de São Francisco, obra-prima do Aleijadinho (e do barroco mineiro). Fiquei impressionado com a manifestação de fé. O sagrado e o profano. Montar uma procissão, colocá-la na rua com seus milhares de figurantes, não é muito diferente de uma escola de samba. Acompanhei fascinado todo o processo. A procissão do Senhor Morto atravessa Ouro Preto. Anjinhos, figurantes que representam os personagens bíblicos, padres, integrantes de confrarias, as bandas. Quando chegou o féretro do Senhor Morto, parecia enterro de verdade. O silêncio. Confesso que alguma coisa me divertiu. O narrador falava da dissoluta Herodíades, amante de Herodes, e veio uma senhorinha que era a própria virtude. Recatada e do lar. Nenhum physique du rôle. Mas, também, o que estava esperando? O problema é que estava ao lado de Gabriel Villela, um dos maiores e talvez o maior encenador do teatro brasileiro atual. Imaginava meu amigo colocando aquele bloco na rua. Devaneio. Há que respeitar a fé, não sou nenhum EI. Minha recomendação é que venham a OP para a Semana Santa. É uma experiência e tanto.