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Luiz Carlos Merten

06 Dezembro 2009 | 15h04

Lembro-me sempre do verso que Henry Morgan usa como epígrafe de seu romance ‘A Fonte’… Nossa, este eu tirei do baú! Henry Morgan pertence a uma fase da literatura inglesa que marcou minha infância e juventude. Lia-o muito, bem como a A.J. Cronin e W. Somesert Maugham. Já contei aqui que procurei, e procuro, ‘A Fonte’ em sebos e não encontro. Gostaria de reler uma parte do livro, ‘O Elo’, sobre este triângulo formado por uma mulher, seu marido enfermo e o amante. O casal adúltero se comunica por meio de uma passagem num castelo inglês e a questão é o sofrimento dos dois, que respeitam o marido agonizante, mas não resistem à tentação da carne. A epígrafe é um verso de… Quem mesmo? Yeats? ‘Tu não pecas senão para te submeter a uma nova purificação’. Acho isso uma das coisas mais belas, e profundas, que li na vida. Parafraseando, às vezes acho que erro, não apenas para ser corrigido, mas porque o erro abre uma porta para que fale de outras coisas que, conscientemente ou não, me interessam. Por exemplo, troquei ‘Minha Vontade É Lei’, o título brasileiro de ‘Warlock’, western de Edward Dmytryk que amo, por ‘O Revólver é Minha Lei’, que foi como se chamou no Brasil outro western, ‘Gun Hawk’, com Rory Calhoun, acho que de 1963. Isso vai me permitir falar mais uma vez sobre Edward Ludwig, o maior dos pequenos diretores, autor de um dos meus filmes cults – ‘O Rastro da Bruxa Vermelha’. Enéas de Souza foi um solitário defensor de ‘Gun Hawk’, quando o filme estreou – e olhem que nós, em Porto, éramos todos loucos por westerns, Jefferson Barros, Enéas, José Onfre e eu -, mas descobri agora, olhando o ‘Dicionário de Cinema’, que Jean Tulard também o considera o melhor Ludwig. Melhor do que ‘O Rastro’? Nunca, mas Tulard, pelo visto, é louco pelo insólito duelo final. Rory Calhoun faz um pistoleiro envelhecido que é a autoridade nesta cidadezinha habitada por ‘foras da lei’. Acontece não me lembro o quê, os pistoleiros se voltam contra Rory e o velho xerife, ferido, provoca um jovem piostoleiro – impulsivo como ele era, quando jovem – para um último duelo (e a possibilidade de morrer com dignidade). É interessante, mas, no começo dos anos 1960, com exceção de Raoul Walsh, em ‘Um Clarim ao Longe’, os diretores se voltavam para pistoleiros envelhecidos (John Ford, Edward Ludwig, Sam Peckinpah etc), de certo prenunciando o ocaso do próprio gênero. Rory Calhoun! Hoje, pelo visto, estou revisitando meu baú. Ele era um tipo bonitão, que estrelou muitos westerns nos anos 1950/60. O mais curioso é que, quando jovem, foi preso num assalto a mão armada e foi parar em San Quentin. Ou seja, um criminoso de verdade encontrou no cinema, e no western, a melhor maneira de dar vazão ao seu comportamento antissocial. Era meio canastrão, mas seu sorriso cínico e provocador atravessa vários (bons) filmes. Cito alguns, além do ‘Revólver’, por seus diretores – Jacques Tourneur, ‘O Gaúcho’; Otto Preminger, ‘O Rio das Almas Perdidas’, também com Marilyn Monroe e Robert Mitchum; e o segundo Leone, ‘O Colosso de Rodes’, também com Lea Massari. Rory Calhoun morreu em 1999. Há exatamente uma década, portanto.

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