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Luiz Carlos Merten

13 Novembro 2009 | 13h59

Confesso que sempre rtive um carinho especial por King Vidor. Tendo se iniciado no cinema ainda no período silencioso, ele fez filmes que se tornaram marcos. Pouca gente reconhece isso, mas ‘The Crowd’, de 1928, uma das últimas obras-primas do cinema mudo, foi um dos filmes que fizeram avançar a linguagem cinematográfica. Ao contar a história de um casal jovem que se muda para Nova York, Vidor quis que os espectador compartilhassem com eles a experiência do esmagamento do indivíduo na vida massificada e trepidante da metrópole. São muitos os planos – há 81 anos! – em que a câmera parte do rosto dos atores e os mostra sendo engolidos pela multidão ou, inversamente, mostra a multidão compacta e se aproxima para isolar os protagonistas. Tudo isso estava sendo inventado, não haviam precedentes. E há o clima do filme, a ideia, talvez banal mas genuína, de que o afeto termina sendo a arma do casal contra a adversidade. ‘The Crowd’ já esboça ‘Stella Dallas’ (Mãe Redentora), marco do melodrama, que Vidor fez com Barbara Stanwyck, em 1937, mas eu tenho a impressão de que há algo, aqui, de ‘Aurora’ (Sunrise), de W. F. Murnau, sobre outro casal, também nos estertores do cinema mudo. ‘No Turbilhão da Metrópole’ (Street Scene) é quase um desdcobramento de ‘The Crowd’, olhando a vida na cidade grande pelo ângulo dos moradores de um prédio, que a câmera segue num único dia. O filme é de 1931, acho que já disse. Três anos mais tarde, em 1934, ‘O Pão Nosso’ retoma o casal de ‘The Crowd’. Agora saturados da metrópole, marido e mulher vão para essa fazenda onde se integram a outros desempregados e despossuídos para formar uma cooperativa. Nada mais avesso ao espírito norte-americano, uma cooperativa! Isso era mais coisa de comunista e BVidor talvez tenha sido influienciado pelo Dovjenko de ‘Terra’ ou por outros grandes soviéticos que também celebravam a força da coletividade para resolver a crise – não se pode esquecer que os EUA viviam a grande depressão econômica. ‘O Pão Nosso’ terminacom a fazenda ameaçada pela falta de irrigação. O desfecho vem por meio da cena da represa, que Vidor trabalha como montagem musical. É maravilhoso. Não conheço tanto seu cinema como gostaria, embora, para a extensão de sua carreira – e importância -, ele não tenha feito tantos filmes assim. Nunca vi, por exemplo, ‘A Cidadela’, que Joseph L. Mankiewicz produziu (e li o romance de A. J. Cronin, um autor que ainda era muito popular nos meus verdes anos). Vidor dirigiu a célebre sequência em que Judy Garland canta ‘Over the Rainbow’ em ‘O Mágico de Oz’. Talvez não devesse, mas amo ‘Duelo ao Sol’, com Jennifer Jones, o mais melodramático dos grandes westerns, e sou literalmente louco pelo outro filme que ele fez com Jennifer, justamente tratando do amor louco. ‘Fúria do Desejo’, Ruby Gentry, é um filme que me apaixona tanto que não tenho discernimento críticdo nenhum. Jennifer, abandonada por Charlton Heston, casa-se sem amor com Karl Malden, apenas para poder se vingar. No desfecho, nos everglades, os amantes se enfrentam e Jennifer vai expiar depois, pelo resto da vida, a amargura da destruição do amado. É quase uma repetição de Jennifer e Gregory Peck se enfrentando a tiros no desfiladeiro de ‘Duelo ao Sol’. King Vidor fracassou em seu último filme, ‘Salomão e a Rainha de Sabá’, mas não deve ter sido fácil administrar a morte do astro Tyrone Power, sua substituição por Yul Brynner e ainda dirigir Gina Lollobrigida, que fala inglês com aquele sotaque macarrônico (além de ser uma bela mulher, mas não uma grande atriz). Em compensação, se há filme que não canso de (re)ver é ‘Guerra e Paz’. Meus colegas ‘críticos’ dizem que Vidor edulcorou Tolstoi, qusando na verdade ele o filtrou por Stendhal, para melhor discutir a natureza da guerra. A cena de Pedro em Borodino, a flor que cai da mão de Henry Fonda, é Tolstoi mas também é o herói da ‘Cartuxa de Palma’ atravessando Waterloo. E as cenas da retirada do Exército de Napoleão da Rússia são grandiosas. Nem Kubrick, se tivesse feito seu épico sobre o ‘corso’, teria feito melhor. Henry Fonda é o Pedro perfeito, mas me faltam palavras para definir a Natacha de Audrey Hepburn. King Vidor era filho de um grande industrial. Fez um cinema fortemente marcado pelo social, contra a guerra e em defesa do humano. Sylvia Sidney é tão linda em ‘No Turbilhão da Metrópole’ e a trilha de Alfred Newman é clássica, como seria mais tarde de ‘Guerra e Paz’, com temas de Nino Rota sobre Tchaikovski e Beethoven. Volta e meia não resisto e me refiro a King Vidor aportuguesado como o ‘rei’ Vidor. No meu imaginário, esse cara faz parte da realeza do cinema.