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Cultura » O rapaz que partia corações

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Luiz Carlos Merten

07 Novembro 2007 | 16h47

Assisti hoje de manhã a ‘Antes Só do que Mal Casado’, a comédia que os Farrelly Brothers, Bobby e Peter, adaptaram do velho filme de Elaine May, ‘The Heartbreak Kid’, de 70 e poucos, que no Brasil se chamou ‘O Rapaz que Partia Corações’. Charles Grodin era o próprio – agora substituído por Ben Stiller – e o filme antigo, como afirma Leonard Maltin em seu ‘Guia de Filmes’, pode ser definido ao mesmo tempo como hilariante ou horroroso, dependendo do ponto de vista de cada um. Elaine May formava dupla com Mike Nichols antes de ele virar diretor. Faziam stand up comedy, à base de improviso, e eram considerados os melhores – brilhantes e corrosivos. Os irmãos Farrelly reinventam agora a história do sujeito pressionado pelo pai e pelos amigos a se casar. Ele se atira num relacionamento e, antes mesmo de chegar a Los Cabos, no México, onde vai passar a lua-de-mel, descobre que se casou com a mulher errada. Mais grave ainda – ele encontra ali no hotel a que parece a mulher de seus sonhos (e ela é interpretada por Michelle Monagham, de ‘Medo da Verdade’). Mais até do que o filme antigo, o novo poderá ser considerado horroroso ou maravilhoso. É uma piada atrás da outra, humor politicamente incorreto, que não poupa pessoas nem instituições, em choque com uma tendência ao sentimentalismo que Bobby e Peter vem deixando flagrante desde ‘O Amor É Cego’, cuja idéia eles retomam na cena do casamento, quando aparece a mãe da noiva. Uma coisa é certa – quase morri de rir! A capacidade que eles têm de reinventar o próprio grotesco não é pouca coisa. Lembram-se da cena da morte e, posterior, ressurreição do cãozinho em ‘Quem Vai Ficar com Mary?’ A fada que se revela uma peste fala aqui como se fosse Cameron Diaz e a idéia talvez seja mostrar que o happy end de ‘Mary’ na verdade levou a Los Cabos, um paraíso que vira armadilha para Ben Stiller. A noiva tem desvio do septo e a pílula, a carne, a batata, fica tudo saindo do nariz dela, como se fosse meleca. Inacreditável! E aquilo tudo faz sentido. É como se eles colocassem na cara da gente um espelho, para mostrar o que é a sociedade norte-americana e como funciona seu cinema.