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Luiz Carlos Merten

12 Setembro 2008 | 13h38

Quem foi mesmo – o Marcos? – que me definiu como sendo do contra, deixando subentendido que não sabe se é marketing ou simplesmente um gosto esdrúxulo o fato de eu andar na contracorrente? A crítica americana amou ‘Trovão Tropical’, eu achei aquilo uma porcaria e não consegui dar uma risdadinha, que fosse (dei uma, para dizer a verdade, numa cena de bofetada que não me lembro mais qual foi, mas me recuso a rever o filme para fixar a imagem – vou esperar na TV paga). Eles, os gringos, detestaram ‘Perigo em Bangcoc’, acharam o pior filme de ação do ano, da década, e eu achei bem interessante e até gostei do Nicolas Cage e do toque de sensibilidade que os diretores, os Pang Brothers, introduzem na história do assassino profissional que descobre (e eu acreditei) que o homem não nasceu para ser solitário. Da mesma forma, não me impressiono muito com esses filmes de arte de Hollywood, tipo ‘Sangue Negro’ e ‘Onde os Fracos não Têm Vez’, que deixam a galera em transe. Uma, que é preciso ser muito tonto para ficar vendo grandes parábolas na (re)visão bíblica de Paul Thomas Anderson ou na farsa dos irmãos Coen. Não digo que sejam filmes ruins, mas são supervalorizados, ah, isso são. E duas que, bem, talvez esteja mesmo remando contra meus ‘colegas’. Ocorreu de eu pedir uma informação e alguém resolver comparar os guias do ‘Estado’ e da ‘Folha’. Lá estava o quadro do concorrente. Caí duro ao ver que Inácio Araújo – Inácio! – achou ‘O Cavaleiro das Trevas’, como é que é? chato, ruidoso e reaça, e também que despachou ‘Canções de Amor’ dizendo que cai na segunda e terceira partes, enquanto ‘Os Desafinados’ cresce, porque ele deu cotação melhor. Cresce onde? Não na minha horta. Imagino que muita gente se assuste com certas coisas que digo e aprovo, mas eu estou tão desacostumado de ler a opinião dos outros – sorry – que me convenço de que de perto ninguém é normal cada vez que me defronto com essas coisas. (Devem pensar o mesmo de mim.) Vou passar agora dez anos sem olhar de novo a cotação dos outros. Já que estou completando hoje 63 anos e dizem que, ao envelhecer, a gente reencontra a infância, pergunto-me se não estou voltando à rebeldia dos meus verdes anos, no começo dos 60, quando P.F. Gastal ficava incensando, em Porto Alegre, todos aqueles diretores ‘sérios’ e eu, que já amava Visconti, preferia me divertir com Ricardo Freda ou Vittorio Cottafavi a ver um Fred Zinnemann e um Stanley Kramer (Deus me livre!).