Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » O que Wyler e Hathaway têm em comum?

Cultura

Luiz Carlos Merten

26 Dezembro 2006 | 17h54

Não tive tempo de comentar, mas vi ontem na TV paga, em Porto Alegre, o filme de William Wyler Chaga de Fogo. Quando sintonizei no Telecine Cult, já tinha começado e eu cometi aquele pecado que volta e meia me aflige. Vou ver só um pouco, me disse. Tinha recém começado e eu vi até o fim. Na seqüência, começou Os Filhos de Katie Elder, que eu também disse que ia ver só um pouco e, de novo, terminei vendo até o fim, quase perdendo O Amor não Tira Férias por isso. O que o drama psicológico do Wyler tem a ver com o western de Henry Hathaway? No limite, poderia dizer que ambos tratam de homens acossados pelo passado (Kirk Douglas no filme de Wyler; John Wayne no de Hathaway). Mas o que mais aproxima os dois é a estética. E olhem que são diversos – em tudo. Wyler se baseou numa peça e não se preocupa em tirar o filme dele das quatro paredes da delegacia em que o detetive intransigente faz descobertas cruéis sobre a mulher, a profissão e ele mesmo. (Podem apostar que Martin Scorsese pensou em Chaga de Fogo ao fazer Os Infiltrados.) Hathaway vai na direção oposta. Tira a ação dos interiores e constrói aquilo que antigamente se chamava de ‘horse opera’, valorizando o cenário, a paisagem. É curioso lembrar disso, mas meu amigo Tuio Becker dizia que Hathaway devia filmar no quintal da casa dele ou no seu sítio. Há um tipo de árvore, ao redor de um córrego, que só aparece nos filmes dele, uma espécie de assinatura. A cena do ataque dos malfeitores à carroça que leva os prisioneiros retoma essa paisagem conhecida em Katie Elder. Pois bem, até agora só falei de diferença. Wyler sempre foi considerado o supra-sumo do classicismo. Ele próprio assumia isso e, tendo nascido na França, conta a lenda que, no fim da vida, fez imprimir em seu cartão de visitas – William Wyler, Ancienne Vague, para diferençar da nouvelle vague, que dava as cartas nos anos 60. Velha onda, uma pinóia. Wyler, com sua clara preferência por dramas sociais e roteiros psicológicos, seduzia o crítico André Bazin pelo seu uso da profundidade de campo. Bazin, um teórico importante, dizia que Wyler, ao transformar a profundidade de campo em plano-seqüência, de longa duração, deixava o espectador livre para fazer o próprio corte. O ‘velho’ Wyler, portanto, foi pioneiro nessa de transformar o espectador em co-autor do filme. Na verdade, o espectador sempre é, mas Wyler, mais que outros autores, o estimulava a isso. Hathaway não tinha a predileção de Wyler pela psicologia. Seu cinema privilegia a ação, mas ele também é um mestre na utilização da profundidade de campo. Ao mesmo tempo, pode-se ver em Katie Elder um eco de Resnais, de Hiroshima, Meu Amor. Duvido que fosse intencional, ou consciente – adoraria acreditar que sim –, mas Hathaway também usa o tempo, o embate entre passado e presente, para criar um imaginário. A mãe, Katie Elder, morre no começo do filme. Nunca aparece, nem em flash-back, mas sua presença é permanente. Dean Martin esbarra na cadeira de balanço e John Wayne segue o movimento com o olhar. Ele abre o armário e vê o vestido pendurado. No final, é a ação que sustenta a psicologia e ela é consistente em Os Filhos de Katie Elder, nos dizendo tudo o que precisamos saber sobre Katie Elder e seus quatro filhos. O filme teve um remake recente de John Singleton, Quatro Irmãos, com Mark Wahlberg. O próprio Singleton me disse numa entrevista que não era remake, coisa nenhuma, mas era. Só que o filme dele, impressionante (e realista) como era na explosão final de violência, não confiava muito no espectador e usava flash-backs para construir a presença da mãe que Hathaway sugere por meio de detalhes que fazem a diferença. Os Filhos de Katie Elder é de 1965; Quatro Irmãos é de 2005 – 40 anos de diferença, durante os quais o cinema parece ter regredido. O próprio cinemão ousava mais. É, aliás, o que diz o roteirista interpretado por Eli Wallach em O Amor não Tira Férias, que eu continuo recomendando como programa legal. E ah, sim, Chaga de Fogo terá repeteco amanhã, às 8h20, no Telecine Cult.É um pena, mas Os Filhos de Katie Elder não passa mais neste finalzinho de ano. Talvez no próximo…