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Cultura » O que ver, às 7 da noite?

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Luiz Carlos Merten

26 Julho 2007 | 15h24

Perdi a chance de recomendar um debate que acho que deve ter sido interessante, agora pela manhã, no Festival do Cinema Latino-Americano, no Memorial. Maria do Rosário Caetano coordenou uma mesa para discutir as parcerias. Participaram o diretor Karin Aïnouz e a produtora Sara Silveira, pelo Brasil, e o diretor Alexis dos Santos, pela Argentina. Apropveito para antecipatr outro debate que acho que será bem legal, no sábado à tarde (14 horas). A Imagem Latino-Americana vai reunir quatro diretores de fotografia (Hugo Kovensky, Pedro Farkas, Rodolfo Sánchez e Ramiro Civita)para discutir espero que não apenas a qualidade da imagem nos filmes latinos, mas também a imagem que esses filmes oferecem do continente. O problema é que este debate deve ocorrer no mesmo horário que a aula magna de Paul Leduc. Aí não dá, não é? Isso posto, quero chamar a atenção para dois programas de hoje. Às 7 da noite, na sala 2 do Memorial, com aqueles mais de 700 lugares, passa um dos filmes menos conhecidos de Buñuel. Eu próprio não conheço A Adolescente (The Young One), sobre garota, uma espécie de Lolita, que é estuprada numa ilha, no racista Sul dos EUA. O filme é de 1960 e foi o último da fase de Buñuel anterior a Viridiana, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, pela Espanha. Mas você vai ter de escolher – no mesmo horário, na reduzida Sala Multimídia do Memorial, com apenas 60 lugares, passa Boquitas Pintadas, com Alfredo Alcón, que Leopoldo Torre-Nilsson adaptou do romance de Manuel Puig. Torre-Nilsson foi uma figura muito contestada do cinema argentino. De alguma forma pode ser comparado a Jorge Luis Borges. Como ele, era um homem de cultura – e possuidor de um domínio técnico perfeito –, mas seus dramas existenciais, ligados à classe dominante e à tradição européia, como os de Walter Hugo Khouri, no Brasil, eram colocados em xeque por críticos que cobravam do diretor o que ele não queria oferecer, um comprometimento social como o de diretores tipo Leonardo Favio e Hugo Del Carril, que também estão contemplados no festival. Existem vários filmes de Torre Nilsson que me impressionaram, e são, em geral, os da fase bergmaniana (La Casa del Angel, La Caída, Fin de Fiesta, La Mano en la Trampa). Acho Graciela Borges deslumbrante em Piel de Verano, filmado no inverno, em Mar Del Plata, e que tem um diálogo lindo em que Alcón e ela se definem como ‘peles do verão’, aquela que descasca e perde a serventia. Conheço menos a fase dos épicos, que começou com Martin Fierro, adaptado do poema de José Hernandez (e contestado por Solanas, que até fez Los Hijos de Fierro contra Torre-Nilsson). Nunca vi os outros épicos, El Santo de La Espada e Güemes – La Tierra en Armas. Seguiram-se Los Siete Locos, adaptado de Roberto Arlt, e Boquitas Pintadas, que deve ter motivado o filho de Torre-Nilsson, Javier Torre, a fazer Vereda Tropical, sobre o exílio do escritor no Rio de Janeiro.