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Luiz Carlos Merten

22 Setembro 2011 | 22h08

É sempre assim. Um post puxa outro. Falei da Première Brasil – Marcos Didonet me ligou hoje para combinarmos as mesas das quais farei a mediação, durante o Festival do Rio – e não resisto a comentar o e-mail com informações que me mandou a Lilian, que faz a assessoria do evento. O Festival do Rio já confirmou filmes que estavam em Veneza e estou nos cascos para ver – ‘A Dangerous Therapy’, ‘Terraferma’ etc -, mas nada me entusiasmou tanto quanto a homenagem a Patricio Guzmán e a retrospectiva de… Quem? Dario Argento. O pai de Asia ganha revisão, espero que completa. Não apenas os filmes do começo da carreira, ‘O Pássaro das Plumas de Cristal’, ‘O Gato de Nove Caudas’ e ‘Quatro Moscas no Veludo Azul’, mas também os dramalhões cujos excessos fizeram a reputação do cineasta. ‘Suspiria’, ‘A Mansão do Inferno’, ‘Phenomena’ e ‘A Síndrome de Stendhal’. Aleluia! Espero reencontrar no Rio Patricio Guzmán, de quem cerrei a mão, no começo do ano, em Paris, naquele cinema, La Clef, em que se realizou o debate de ‘La Nostalgia de la Luz’. O filme é maravilhoso, mas o que me caiu como um raio foi o clima da sessão, com todos aqueles chilenos exilados que se irmanavam lembrando os anos que lhes foram roubados com a derrocada da Unidade Popular. ‘La Nostalgia de la Luz’ é, entre outras coisas, sobre familiares que escavam o deserto de Atacama em busca dos restos de seus entes queridos, mortos pela brutal ditadura de Pinochet. O Atacama é a região mais rarefeita da Terra. Ali se tem a vista mais completa do céu, em todo o planeta. Uma luz especial – a luz que Guzmán vem lançando, com seu cinema documentário, sobre a trajetória de Salvador Allende e o que ocorreu no Chile. Guzmán vai receber o prêmio de Personalidade Latino-Americana. Não quero idealizar ninguém, até porque tenho ouvido duras críticas a Guzmán. Como depositário das imagens que reuniu sobre o Chile, e Allende, ele estaria monopolizando esse acervo, ao invés de torná-lo acessível. Será um tema para discussão. Já o filme, ‘Nostalgia’, é admirável. Guzmán pertence à geração de Raúl Ruiz e Miguel Littín. Um pouco mais velho que eles era Aldo Francia. Todos autores da Unidade Popular, do sonho socialista chileno do começo dos anos 1970. Ruiz morreu há pouco (e pediu para ser enterrado no Chile). Guzmán ganha homenagem. Que venha o Festival do Rio e, na sequência, a Mostra de São Paulo. Como diz meu querido amigo Nei Duclós, ‘lento e bruto eu mudo/sei que vem outubro’.