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O que vale a pena

Luiz Carlos Merten

21 Outubro 2012 | 11h36

Sexta-feira à noite, em plena Mostra, abandonei o maior evento de cinema da cidade para assistir, no Tuca, à estreia do ‘Hamlet’ de Thiago Lacerda. Quem viu Thiagão como Calígula, na montagem de Gabriel Villela do texto de Albert Camus – adaptado por meu amigo Dib Carneiro -, deve-se lembrar do impacto da entrada dele em cena, se arrastando peo solo e depois se levantando para adquirir proporções sobrehumanas. Na sua versão da tragédia do idealismo de Shalespeare, Ron Daniels faz com que ele avance do fundo do palco portando uma capa e capuz. Thiago, que já é alto, não termina mais. Parece ter três metros de altura. Bigger than life? Hamlet é um dos personagens mais famosos da dramaturgia – da literatura, de maneira geral – e o seu dilema existencial (‘Ser ou não ser’) virou resumo das aflições mais básicas que atingem o homem. Um amigo que encontrei ontem na Mostra me perguntou – vou ou não vou? Por que não iria? Confesso que fiquei meio desnorteado com a tradução/adaptação. ‘Ron’ (Ronaldo, a anglicização do nome é motivo de chacota para algumas pessoas) cria um diálogo naturalista, no limite do coloquial. Falas famosas me soaram estranhas ao ouvido, mas tenho de admitir que o diretor e seu elenco, se correm um risco, têm competência para segurar o espetáculo, naquele tom, de ponta a ponta. O Hamlet de Ron Daniels e Thiago Lacerda é menos ‘aeróbico’ que o de Aderbal Freire Filho e Wagner Moura (e aquilo me incomodava mais ainda), a postura cômica de Polônio é exagerada para o meu gosto (mas funciona para a dinâmica do espetáculo, em sua relação com o público), tudo isso é verdade, mas o Thiago, com o perdão da palavra, é f… Gostei dele, da Selma Egrei como Gertrudes e, mesmo não gostando muito do começo de Ofélia, acho que a atriz que faz o papel, e cujo nome não lembro, sorry, se comporta lindamente na loucura, e isso não representa pouco. Com o atraso da estreia, o espetáculo, com direito a intervalo, terminou depois da meia-noite. Bem no meio, acenderam-se as luzes e o cara na poltrona de atrás ligou seu celular e foi logo anunciando – ‘Foi Carminha quem matou o Max’. Criou-se a comoção. Assisti, depois, ao último capítulo da novela de João Emmanuel Carneiro (ponho sempre dois Ns, mas não estou seguro de que tenha). Todo mundo já falou da importância da novela e do senso de oportunidade do autor, que colocou a periferia no centro da trama, e no momento em que as classes C e D ascendem socialmente. João Emmanuel escreveu ‘Central do Brasil’ com Marcos Bernstein. Aqui, faço um parêntese. No Festival do Rio, cortesia da Cecília, da HBO, fui brindado com um momento especial. Encontrei-me com o diretor Philip Kaufman, seu filho produtor e Rodrigo Santoro para uma entrevista exclusiva. O local foi a mítica piscina do Copacabana Palace. Cheguei e Rodrigo conversava com Marcos Bernstein, diretor do belo ‘O Meu Pé de Laranja Lima’, que está na Mostra. Quando Kaufman e o filho se aproximaram, apresentei-os a Marcos, ‘a brazilian screenwriter and filmmaker’. O próprio Marcos disse que havia coescrito ‘Central Station’. O filho de Philip Kaufman se curvou e o próprio Kaufman iluminou o sorriso. ‘It’s a true honor, sir.’ Confesso que inflei pelo Marcos. ‘Central Station’, de Walter Salles, e ‘City of God’, de Fernando Meirelles, são referências do cinema do Brasil para o mundo, se são. Volto ao último capítulo de ‘Avenida Brasil’. Adorei o gol de Adauto (Juliano Cazarré) e o fecho com a bandeira do Divino tremulando, mas não vi nada mais belo, em nenhuma novela – tudo bem que não sou o maior noveleiro -, do que a refeição na casa de Lucinda, no lixão, quando Jorginho e Nina foram apresentar a Carminha seu neto. A cena quase não teve diálogo, somente trocas de olhares. Quequi era aquilo? João Emmanuel escreveu uma cena de cinema e a diretora Amora Mautner (filha de Jorge) transformou aquilo num raro momento de antologia. Pode ser que a viagem tenha sido minha, mas me lembrei de Fernanda Montenegro catando feijão no desfecho de ‘Eles não Usam Black-Tie’, de Leon Hirszman. No Rio, havia-me encontrado com Fernando Trueba, que veio mostrar ‘O Artista e a Modelo’ (com Claudia Cardinale). Ele me disse que realiza um documentário sobre cinema latinoamericano. Na verdade, íbero. Por conta disso, tem visto e revisto muitos filmes brasileiros, argentinos e de outras nacionalidades no continente. Trueba descobriu ‘São Paulo S.A.’ e se apaixonou pelo clássico de Luiz Sérgio Person. Também viu ‘Black-Tie’ e foi outra paixão fulminante. Neste mundo global, um filme sobre uma família de sindicalistas pode parecer defasado, mas não. Revi outro dia na TV paga e a obra-prima de Leon Hirszman nunca me pareceu mais bela (nem atual). Vi a troca de olhares, naquele refeição do lixão, e pela minha cabeça passavam grandes momentos do cinema. Não chorei, mas fiquei inflado. Feliz. Toda forma de arte, como de amor, vale a pena.