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Luiz Carlos Merten

15 Outubro 2011 | 11h25

RIO – Falei outro dia do ensaio de um espetáculo a que assisti na Cinelândia, após o filme de Beto Brant e Renato Ciasca. E levantei uma questão sobre os painéis com os desenhos de Federico Fellini, aquelas mulheres exageradas, imensas. Ontem, o acaso me fez ver ‘Ensaio sobre a Beleza’, que é como se chama o tal espetáculo, parte de uma programação, ou comemoração, Itália/Brasil. Vi só um pedaço de ‘A Hora e a Vez de Augusto Matraga’ e hoje tenho de terminar o filme de Vinicius Coimbra para mediar o debate, à tarde. Estava no business center do hotel, com matérias para a edição de domingo do ‘Caderno 2’. Uma pequena e outra maior. A pequena, quando fui conferir, havia chegado. A outra, seguindo o mesmo caminho, perdeu-se. Como? Com o João Sampaio e a Regina Cavalcanti esperando em São Paulo, tive de correr à sucursal para redigir de novo, na página, o texto que ninguém (os técnicos do hotel) conseguia recuperar. Quando voltei para a Cinelândia, o espetáculo começava. Muita coisa bonita, mas muita coisa brega, também. Ópera, melodrama – e Fellini. No prédio da Câmara, no Teatro Municipal, projetaram-se as imagens dos fimes de Federico Fellini. ‘A Doce Vida’, ‘Oito e Meio’, ‘Amarcord’… Marcello Mastroianni e Anita Ekberg, a cena da Fontana di Trevi. A Saraghina, que, de todas as criações fellinianas, é a que mais mexe comigo. ‘La rumba, Saraghina!’ O dr. Freud, se quiser, que examine o caso. E a Gradisca. Olhava encantado para as projeções nos prédios e havia toda uma parafernália. Bailarinos suspensos por cabos e os operários que corriam no meio da multidão. De repente, ouvi ‘Sai da frente, senhor!’ Quase me derrubaram. Não faz mal. Eu estava em transe ou trânsito? E vieram elas, as mulheres, em carne e osso. Os painéis que vira outro dia foram montados sobre plataformas que eram conduzidas pelos operários. Na frente de cada croquis de Fellini, a representação real da fantasia do grande diretor. A primeira era uma mulher descomunal, de seios de fora. Encontraram, não sei onde, a encarnação daquele delírio. E a mulherona, com a língua de fora, numa promessa obscena, oferecia os seios fartos. O que podia ser brega virou, para mim, de uma beleza de cortar o fôlego. Emocionante! Encerrando o desfile, a bola transparente, que havia visto no outro dia. E, elevando-se sobre tudo, Chico Buarque (e Milton Nascimento), o tema de ‘Dona Flor’, ‘O que será?’ Por um momento, tudo o que queria era não estar sozinho, mas estava. Aquilo era para compartilhar.