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Cultura » O que o público, parte dele pelo menos, quer

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Luiz Carlos Merten

20 Junho 2009 | 12h27

RIO – Já havia entrevistado o ator Charles Berling e o diretor Philippe Lioret, dois destaques da delegação francersa que veio ao Brasil para o 2º Panorama, mas no almoço na casa do cônsul o contato foi outro, mais ameno, e Bira (Ubiratan Brasil) e eu desfrutamos da companhia de ambos (e também de Dora Mourão, que lá estava). Conversei muito sobre teatro com Charles Berling, que, a par de sua atividade no cinema, dirige e atua no teatro. Falamos no atual projeto, uma peça de Beckett, e no anterior, o ‘Calígula’ de Camus. Contei-lhe da montagem brasileira de Gabriel Vilela, com a tradução de meu amigo Dib Carneiro Neto. Berling contou como obteve autorização da filha de Camus para fazer alterações que julgava necessárias para atualizar o texto e trazer a discussão para a atualidade, para essa França assolada pelas migrações das antigas colônias, qual o império romano do próprio Calígula. Essas alterações, confessou, ele não tirou do nada, mas de reflexões e escritos do autor, a que teve acesso, justamente através da filha. Comentei com ele o desespero de Visconti, que queria mudar ‘O Estrangeiro’, mas a viúva de Camus foi intransigente e i mestre, preso a contrato, teve de fazer o filme fiel à letra do romance e sem o ator que queria (Mastroianni substituiu Delon, que era o sonho de Luchino para o papel). Visconti considerava que ‘O Estrangeiro’, apesar de tudo, não era um de seus filmes menores, e eu concordo, mas Charles Berling é duro e considera o filme ‘raté’ (frustrado). Alguém reclamou da ausência de mediação no debate de Berling com o público, após a exibição do Assayas, ‘Horas de Verão’, mas tanto ele quanto Philippe Lioret elogiaram o nível das discussões aqui no Brasil. É curioso que, naquela noite, fui ao Sesc Dr. Vila Nova para ver a Simone de Beauvoir de Fernanda Montenegro. Amigos não gostaram muito e acharam o texto uma simplificação do pensamento da autora, mas eu gostei – a diferença que faz uma atriz inteligente como Fernanda! Fui ao camarim, no final, e Fernanda falou do impacto que teve sobre ela, jovem ainda, a leitura de ‘O Segundo Sexo’, em 1951, apenas dois anos após o lançamento do livro na Europa. Às quartas, o projeto ‘Simone de Beauvoir’ de Fernanda e Felipe Hirsch, que não é só a peça, inclui a projeção de um documentário sobre a companheira de Sartre, seguida de debate. Fernanda destacou o entusiasmo do público, a participação. No outro dia, fui àquele debate de Walter Carvalho e Leonardo Medeiros, mediados por Fernando Meirelles, sobre ‘Budapeste’. Não gosto do filme – e até fiquei curioso de ler o texto elopgioso de Walter Salles no ‘Caderno 2’ de sábado passado -, mas o debate foi bom. Claro que sempre sai alguma bobagem, alguma situação meio constrangedora, mas faz parte. Debater é preciso, e o público está querendo.