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O que nos tira de casa?

Luiz Carlos Merten

04 Novembro 2009 | 09h03

Êta baiano arretado.Tudo o que Caetano Veloso fala, queira ele ou não, vira polêmica. Penso até que Caetano hoje virou a reserva dos jornais. Quando algum editor acha que as coisas estão meio paradas e pede a seus repórteres que cavem uma polêmica, basta ligar para o bom baiano. Caetano foi parar ontem na capa do Segundo Caderno do ‘Globo’. Na semana passada, ele deu uma entrevista não propriamente esculhambando Woody Allen – não li, não conheço os detalhes -, mas limitando seu alcance e dizendo que Woody, hoje, é um autor para se ver na TV. O ‘Globo’ ouviu atores, diretores. Todos vestiram o modelito da viúva ultrajada. Como, esculhambar Woody Allen? Quero dizer que, mesmo sem ter lido a entrevista de Caetano, tendo a concordar com ele, em gênero, número e grau. Woody Allen já foi bem mais interessante para mim. Adorava-o na grande fase com Mia Farrow – ‘Zelig’, ‘A Rosa Púrpura do Cairo’, ‘Hannah e Suas Irmãs’, ‘Crimes e Pecados’, ‘Maridos e Esposas’. Já disse que o divórcio litigioso repercutiu mal, para mim, na obra. A nova fase pode ter sido benéfica para o homem – Allen precisava de uma mulher que mandasse nele, é isso? Aquele documentário da Barbara Kopple é muito esclarecedor. A chinesinha trata o cara como criança grande, manda e desmanda –, mas não necessariamente para o artista. Não é que tenha me desinteressado pelo Woddy Allen (mas quase). Os filmes dele são divertidos, agradáveis, inteligentes, mas eu, pelo menos, não vejo mais grandes reinvenções de linguagem – até John McTiernan, que vai ser presidente do júri no Festival do Amazonas, bebeu na fonte de ‘Zelig’ e ‘A Rosa Púrpura’ –, nem sinto mais aquela densidade de ‘Hannah’, por exemplo, ou de ‘Crimes e Pecados’. Tudo é mais leve, agora, ligeiro, uma maneira de brincar com os códigos do espectador – Penelope Cruz, em ‘Vicky Cristina Barcelona’, parece saída de um filme de Almodóvar, que segue mais complexo, e transgressor do que Woody. Não entro na discussão da ‘caretice’, até porque Allen, na vida, deu uma reviravolta grande demais para merecer o rótulo. Dito isso, quero acrescentar que, excepcionalmente, li alguns dos depoimentos sobre Woody Allen na capa do Segundo Caderno do ‘Globo’. Achei relevante somente um, e é de quem menos contesta Caetano, a produtora Marisa Leão. Marisa toca no ponto. Se Woody Allen é careta ou não, não é o mais importante na declaração de Caetano. Isso é só manchete sensacionalista, para chamar atenção. O cerne é outra coisa – a sugestão de Caetano de que a TV talvez seja o veículo perfeito para o Woody. Marisa faz uma análisae pertinente, segundo a qual o cinema abre espaço para obras polëmicas, como ‘Distrito 9’, tecnicamente inovadoras, como o 3-D de ‘A era do Gelo 3’, ou comédias descoladas como ‘Se Beber não Case’, como aquelas que levam público às salas. O filme do meio, e os filmes autorais, falados de Woody Allen entram na classificação, não tiram mais gente de casa, não viram eventos, são para ser vistos em DVD ou na TV paga. Temos aqui duas coisas. A polêmica ‘fabricada’ de Caetano – me lembro que ele já tinha falado mal de ‘Menina de Ouro’, preferindo, pelo tema da eutanásia, o ‘Mar Adentro’, com o que não concordo – e a declaração sensata da Marisa sobre mudanças no comportamernto do público. Já disse como fiquei chocado, na própria Mostra, ao ver filmes importantes projetados para salas quase vazias, é verdade que em horários ‘difíceis’, à tarde, quando a maioria das pessoas está trabalhando. Não sei se o que digo faz muito sentido para vocês. Nem estou engrossando a crítica de Caetano ao Woody Allen, isso já vem sendo feito há mais tempo, aqui. A questão é mais nossa relação, de público, de cinéfilos, com o cinema. O que nos tira de casa? Eu não sirvo, não sou parâmetro. Vejo tudo que é filme nos cinemas, mas eu sou profissional, faz parte das minhas, digamos, ‘obrigações’. E vocês?

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