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O que a juíza de O Insulto e Uma Thurman têm em comum?

Luiz Carlos Merten

04 Fevereiro 2018 | 12h01

Não sei se vai fazer sentido para vocês, mas terminei o texto e, ao pensar num título, embananei. Miscelânia? Mais uma? Vai ser longo, mas quando não é? Talvez seja viagem minha – que raio de crítico seria, se não me apropriasse dos filmes, refazendo-os pelo meu olhar? -, mas não creio que seja mera coincidência o fato de ser uma juíza a conduzir a etapa decisiva do processo de O Insulto, no longa de Ziad Doueiri. A juíza fala pouco, só o estritamento técnico, e com frequência traduz pelo olhar o que não verbaliza. Nicholas Ray – ‘O cinema é a melodia do olhar.’ Continua valendo, não importa quão nova seja a tecnologia. Sua sentença é exemplar, e talvez, para prepará-la, Ziad Doueiri crie a cena genial a que me referi no post anterior. A sentença de O Insulto pode criar ou esvaziar uma grave crise nacional, e eu não pude deixar de pensar no recurso do ex-presidente Lula no TRF-4, em Porto Alegre. O mais curioso é que fui fazer uma pesquisa sobre O Insulto – a premiação em Veneza do ator palestino Kamel El Basha; eu me impressionei mais com o que faz o cristão, Adel Karam: teria dividido o prêmio entre ambos, ex-aequo, mas o júri presidido por Annette Bening preferiu destacar o primeiro para reforçar, imagino eu, um possível apoio à causa, na medida em que ele foi um dos criadores e, por um bom tempo, diretor do Teatro Nacional Palestino – e encontrei uma informação muito interessante. O diretor é filho de uma conceituada advogada libanesa, e ela foi sua consultora legal nos aspectos jurídicos da produção, inclusive estando presente no set nas cenas do tribunal. Pode ser que para os outros isso não signifique nada. Para mim, significou muito. Me deu quase outra perspectiva do filme todo. E mais curioso ainda. Fui fazer agora outra pesquisa sobre Wonderstruck. Tomei um choque ao descobrir que o filme de Todd Haynes estreou em janeiro, quando eu estava fora. Do jornal, talvez tenham me perguntado se havia visto, mas o título brasileiro Sem Fôlego, não tendo nada a ver com o maravilhamento de Wonderstruck, deve ter-me feito perder a referência. Havia gostado muito do Todd Haynes em Cannes. Muito mais que de A Invenção de Hugo Cabret, e olhem que é um raro Martin Scorsese recente que considero apreciável. Os dois se baseiam no mesmo escritor. Enfim, o que queria saber era justamente o nome do escritor, que nunca li. Brian Selznick. Na mesma página da internet encontrei a entrevista de Uma Thurman no The New York Times, relatando as sucessivas tentativas de assédio de Harvey Weinstein, e uma declaração dela de que tudo aquilo foi penoso, mas não a matou. Quem quase a matou foi Quentin Tarantino, na cena do carro de Kill Bill – produção de Weinstein -, que ela não queria fazer e foi obrigada pelo diretor, que não admitiu stunt. Os piores temores de Uma se confirmaram, ela sofreu um acidente, foi parar no hospital, com problemas no pescoço e no joelho. Seu trauma contra Tarantino é maior. Passaram anos brigando. Estou aqui mortificado. Uma sofreu assédio de Weinstein e abuso de Tarantino? Como se trata de uma reportagem do TNYT, não deve ser fake news. Parei para olhar de novo a entrevista, para conferir se não digo bobagem, e Deus! Em minutos encontrei novos links. Apesar da dor – no joelho- estou pensando em ver hoje O Príncipe do Desastre. Encontro que James Franco, indicado para o Oscar, também está sendo denunciado como assediador e que Gary Oldman, aparentemente imbatível na estatueta de melhor ator pelo seu Churchill – em O Destino de Uma Nação -, bateu na ex-mulher durante o processo de divórcio. É um pesadelo. Não tem fim. Cada um renova seu espírito como pode, ou gosta. Vou voltar à minha Agatha Christie. Estou na fase de revisar suas narrativas com o superintendente Battle. Acabo de (re)ler A Hora Zero e vou (re)começar O Segredo de Chimneys. A frase preferida de Battle é – ‘Certas coisas ocorrem para nos colocar à prova.’