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O quarto mosqueteiro

Luiz Carlos Merten

13 Maio 2012 | 13h52

Vi não sei quantas versões de ‘Os Três Mosqueteiros’, incluindo a primeira – acho que foi a primeira -, de Fred Niblo com Douglas Fairbanks, dos anos 1920. Vieram depois as versões de Rowland Lee, Alan Dwan, Bernard Borderie, Richard Lester, Stephen Herek, Peter Hyams e a mais recente, de Paul Anderson, com a exuberante Milla Jovovich como Milady. o cinema me levou à literatura e eu tambvém li diferentes versões do clássico de Alexandre Dumas – adaptado por Monteiro Lobato (era ele, não?) e na íntegra. A última leitura foi recente, no ano passado, quando estava doente de pneumonia. D’Artagnan e seus amigos nuncxa perderam o encanto para mim e o cinema pode continuar revisitando a obra. Nem que seja de bengala, me arrastando, eu vou rever sempre o romance de iniciação de D’Artagnan, que segue me encantando como quando eu era guri. (Como explicar às pessoas a fascinação que o retrato do herói quando jovem exerce sobre mim e que vem até o Taylor Kitsch de ‘Battleship’? Existe herói mais hawksiano no cinema atual? A formação do grupo, a liderança, a salvação da Terra? Nada disso vale o burrito de frango que, no começo e no fim, é o passaporte do garoto para conquistar a mulher desejada e a cumplicidade de seu pai, maravilhoso.) Fechado o parêntese, quero dizer que entendo perfeitamente o Mauro Brider. A versão definjitiva de ‘Os Três Mosqueteiros’ é a de George Sidney, de 1948, com Gene Kelly. Na época, Kelly já era um ás do musical e Sidney e ele haviam feito, por exemplo, ‘Marujos do Amor’ (Anchor’s Aweigh), em que Kelly e Frank Sinatra antecipavam a dupla de marinheiros de ‘On the Town’, de Kelly e Stanley Donen. (Na verdade, neste os marinheiros eram três, de folga em Nova York, mas deixa pra lá.) Embora já fosse maduro para o papel, Kelly é um D’Artagnan cheio de entusiasmo e, quando ele empunha a espada, a narrativa vira um balé – um musical sem canto nem dança, mas esplendidamente coreografado nos duelos. Mauro me pergunta o que acho do cinema de George Sidney? Quarto mosqueteiro do musical, como o define Jean Tulard (no ‘Dicionário de Cinema’), Sidney é daqueles diretores tidos como ‘menores’, mas cuja obra revela pérolas que vale resgatar. Ele fez belos musicais, incluindo o melhor de Elvis Presley – ‘Amor a Toda Velocidade’, em que o rei é genial cantando para Ann-Margret ‘The lady loves me/but she doesn’ty know yet…’) -, ótimos filmes de capa e espada, como ‘Os Três Mosqueteiros’ e ‘Scaramouche’, mas ouso dizer que as obras-primas de Sidney são seus sublimes melodramas e quando falo neles quero me referir a ‘Lágrimas de Triunfo’, Jeanne Eagles, em suntuoso preto e branco, com Kim Novak. A cinebiografia da célebre estrela dos anos 1920 é de 1957 e foi precedida por outro biopic, ‘Melodia Imortal’, The Eddie Duchin Story, de um refinamento que me seduz, sempre que revejo o filme com Tyrone Power e (já) Kim Novak, na TV paga. E não estou me esquecendo de ‘A Rainha Virgem’, com Jean Simmons como a jovem Elizabeth e Charles Laughton como seu pai, Henrique VIII. Nem de ‘Cass Timberlane’, O Eterno Conflito, adaptado de Sinclair Lewis, com Spencer Tracy, pelo qual Antônio Moniz Vianna tinha o maior apreço – e no qual Leonard Maltin diz que Lana Turner tem sua melhor interpretação. Com tanta coisa para lembrar, sabem no que estou viajando agora? Em 1960, Cantinflas era um dos comediantes mais populares do mundo. Sidney fez com ele ‘Pepe’, sobre um peão mexicano que vai a Hollywood disposto a recuperar seu cavalo que foi comprado por um produtor de cinema. Leonard Maltin, sintetizando a voz corrente, classifica o filme como ‘turkey’, mas eu juro que me lembro das mulheres de Sidney, duas atrizes que ele adorava (e eu também) – Kim Novak e Janet Leigh. As cenas delas com Cantinflas guardam uma beleza, e uma ingenuidade, da qual só ele possuía o segredo. Ou será que é o tempo, a memória traiçoeira, que me leva a pensar assim?