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‘O Quarto’ (2)

Luiz Carlos Merten

24 Julho 2011 | 23h09

Quando cheguei a São Paulo, ainda existia o Metrópole, na av. São Luiz. Havia uma sala grande enorme – na qual foi realizada uma das aberturas da Mostra de São Paulo – e outra pequena, no térrreo, onde se realizavam cabines de imprensa. assisti hoje no fim da tarde, como me hsavia programado, a ‘O Quarto’. Numa cena do filme de Rubem Biáfora, Martinho, o personagem de Sérgio Hingst, vai ao cine Metrópole. O filme que está sendo exibido é ‘Fahrenheit 451’, de François Truffaut, mas ele não entra. Prefere ir às putas. Biáfora, ex-crítico do ‘Estado’, foi um  personagem decisivo do cinema paulista nos anos 1950 e 60. Inimigo do Cinema Novo, com fama de americanófilo e direitista – como Antônio Moniz Vianna, no Rio -, ele devia representar tudo o que Glauber Rocha abominava, mas Glauber, a despeito das diferenças, apreciou (e defendeu) ‘O Quarto’. O filme foi exibido hoje no ciclo que a Cinemateca dedica a Sérgio Hingst. Era o ator fetiche de Biáfora.
Martinho não é propriamente um marginal, mas não se enquadra no sistema no qual está inserido. É um pequeno funcionário. Solitário, aliena-se nas suas necessidades sexuais. Ele fica amante de uma grã-fina, interpretada por Giedre Valeika. Por meio dela, Martinho descortina uma possibnilidade de ascensão social, que não vasi se concretrizar. Na cena decisiva, Giedre lhe diz, não sem crueldade, que ele sonhava com champanhe, ela queria experimentar a pinga. A história dos dois nunca poderia dar certo. O pior é que a débâcle é completa e Martinho perde tudo. O filme é duro, implacável. Biáfora não arregla nada com seu personagem. Deve ter sido isso o que seduziu Glauber. Martinho é o homem em crise, espelho de uma sociedade falida, onde não existe espaço para o humano. Havia, num post anterior, me impressionado com a quantidade de nomes importantes, e representastivos, do cinema de São Paulo na ficha de ‘O Quarto’. Tinha mais (nomes). Luiz Sérgio Person faz um papel, aparecendo logo no começo. Wesley Duke Lee traz a preesença das visuais. Havia pouca gente para ver ‘O Quarto’. Éramos 11, no começo da sessão. Entraram mais dois, um casal. Não aguentaram a cena com a prostituta e se mandaram. Não creio que ‘O Quarto’ seja um grande filme, ou tão grande. Muita coisa ficou datada, no visual, principalmente. É tudo cafona, as roupas das mulheres, principalmente, e não importa que os figurinos de Giedre sejam assinados por Zuzu Angel. Quando conversava com Walter Hugo Khouri, ele sempre me chamava a atenção para os figurinos dos filmes da trilogia de Michelangelo Antonioni. Pretinhos básicos, tubinhos, tailleurs. Ainda hoje você assiste a ‘A Aventura’, ‘A Noite’ e ‘O Eclipse’ – que passou neste fim de semana no Cine Mube, no Museu da Escultura – e as roupas permanecem modernas. Mas ‘O Quarto’, com os defeitos que possa ter, é um filme, ou o filme, emblemático de uma era. O desfecho, Sérgio Hingst encerrado naquele quarto, me deprimiu. Mas, ao mesmo tempó que me jogava para baixo, o filme é a expressão de um pensamento estético, político. Acho que o fato de Biáfora ser americanófilo era contingência de uma época – os franceses da nouvelle vague também rezavam pela cartilha de Hollywood. Direitista, não creio que ele fosse. Os diálogos de ‘O Quarto’, quando aqueles burgueses discutem economia, não apontam nessa direção. Mais do que gostar de ‘O Quarto’, gostei de ter visto o filme. E ah, sim. Ultimamente, a Cinemateca anda sediando umas exposições bem interessantes., Havia adorado a exposição das fotos pelos 80 anos de Lygia Fagundes Telles. Tem agora uma sobre o Parque Nacional do Xingu. Não sei se tem a ver com o próximo lançamento do filme de Cao Hamburger, mas achei muito legal. Existem outras exposições pela cidade. Uma dedicada aos Transformers, no Shopping Bourbon, e outra sobre mangá, no Shopping Light. Li, en passant, uma definição sucinta do filme de Michael Bay. É ‘bobagem’. Não concordo e até me lembrei da Chapeuzinho libanesa. Vocês conhecem a píada? Temo que seja preconceituosa, mas lá vai. Chapeuzinho entrou na casa das vovó e ela havia sido comida pelo lobo, que tomara seu lugar. Chapeuzinho começou com as observações de praxe. ‘Para que serve… essa boca tão grande?’ Esse nariz? O lobo cortou-a no ato – ‘Olha quem fala, Chapeuzinho…’ Nariz por nariz… Bobagem, é? Olha quem está falando.