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Luiz Carlos Merten

27 Janeiro 2007 | 22h00

Fui ver Apocalypto, mas deixo para falar amanhã do filme de Mel Gibson. Só antecipo que ele volta ao tema do olho, do olhar, que já desenvolvia em A Paixão de Cristo para propor um testemunho histórico e isso é mais importante que o tal masoquismo pelo qual ele está sendo tão criticado. Vou voltar ao assunto Tiradentes. Na quinta à noite, assisti a um duplo formado por Cine Tapuia, de Rosemberg Cariry, e, na seqüência, à meia-noite!, O Quadrado de Joana, de Tiago Mata Machado. Tiago era, ele próprio coloca no passado, crítico da Folha. Como disse no debate, agora que fez sua opção pela realização (vai fazer o segundo longa), não sabe se ainda pode se considerar crítico. O Quadrado de Joana é interessante, designação muito vasta e que, na realidade, parece coisa de quem está em cima do muro, não querendo tomar partido. Fritz Lang dizia que tudo é interessante no cinema, nem que seja como exemplo daquilo que não se deve fazer. É interessante, insisto, mas não gostei muito de O Quadrado de Joana. A proposta do filme não é narrativa, mas, vá lá que seja, Tiago propõe (senão conta…) a história da ruptura de um casal. Ele próprio estava no meio de um processo de separação, como se apressou a explicar. Temos o espaço da divisão do casal – a mulher, trancada dentro de casa e o homem ganhando a rua. Tiago defendeu uma tese, acho que um doutorado, sobre Godard. É cara de cultura e erudição. Citou Godard, Truffaut, Jean-Louis Comolli, crítico francês, autor do texto O Risco do Real e que virou diretor (entre outros de um filme sobre a Colônia Cecília que parece negar o próprio manifesto do real). Tiago só se esqueceu do essencial. Sua construção do espaço está muito próximo da de Howard Hawks em Hatari!, no qual o aventureiro John Wayne, como caçador, reúne os homens na planície, para a emoção da caçada, enquanto a mulher, Elsa Martinelli, reúne o grupo dentro da casa, em torno ao piano. Hawks fez Hatari!, um dos filmes mais prazerosos a que já assisti, para discutir a ação, a aventura, a organização social, a relação entre homens e mulheres e o cinema. No limite, o que ele diz é que o diretor caça imagens como John Wayne caça animais vivos, para zoológicos de todo o mundo. Tiago fez, e talvez não tenha se dado conta, uma releitura muito particular de Hawks. A mulher dentro da casa é uma paranóica, o homem marginaliza-se na rua a ponto de viver como sem-teto. Existe mais uma criança, como personagem importante, mas o que me interessa é Hawks. O Quadrado de Joana foi feito com R$ 38 mil. Tiago ganhou um edital de curta e fez um longa. Ele é o primeiro a admitir que fez um filme imperfeito. Defendeu-o citando TRuffaut, que também evocava o direito à imperfeição para elogiar seu mestre Jean Renoir. Isso é só meia-verdade, porque Truffaut, mais até do que Renoir, amava Hitchcock, que era obcecado pela perfeição (e disse certa vez a Truffaut que o filme tem de ser feito no roteiro e na decupagem; depois é só passar pela câmera). Quando se iniciou a decadência de Hitchcock, com o maravilhoso (apesar de tudo) Marnie, Truffaut não defendeu a imperfeição do filme, como fazia com Renoir, mas cunhou outra expressão – obra-prima doente. Não digo que O Quadrado de Joana seja uma obra-prima, mas Tiago fez a versão doente de um filme de Hawks. Essa doença tem nome. Passa pela pós-modernidade de um cinema que, desde Godard, tem de ser metalingüístico (e sonha ser guerrilheiro) para expressar sua intelectualidade. Espero que O Quadrado de Joana entre em cartaz. O público poderá achar um saco, Os críticos vão se deliciar. O Quadrado enseja boas discussões, como Serras da Desordemn, de Andrea Tonacci, um dos ganhadores de Gramado, que também fala de cinema e, como o filme de Tiago, arromba os limites entre documentário e ficção.