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A grandeza dos derrotados, O Processo no É Tudo Verdade

Luiz Carlos Merten

16 Abril 2018 | 11h51

Fui ver ontem a estreia de O Processo no É Tudo Verdade. O longa de Maria Augusta Ramos teve sessões às 17 h e às 20 h. Haveria debate após a segunda, mas foi substituído por uma terceira sessão, já que muita gente não arredara pé da porta do IMS para tentar ver o filme. Filha querida do É Tudo Verdade. Assim Amir Labaki apresentou a diretora, dizendo que desde seu primeiro longa ela tem estado presente ao festival de documentários. De cara, na primeira vez, ganhou um prêmio de contribuição à linguagem. Gostei muito do filme e mais ainda de ter ido à sessão de ontem. Havia figuras destacadas do PT e uma militância antigolpe que se manifestava em cena aberta. Nada a ver, mas de alguma forma O Processo me lembrou Costa Gavras. Missing, O Desaparecido – Um Grande Mistério. O longa vencedor da Palma de Ouro não é uma denúncia do golpe militar no Chile, mas é sobre a descoberta, por um americano médio, do envolvimento da própria Justiça de seu país no episódio. O golpe, que foi, já foi devidamente denunciado por um pensador de direita, Olavo de Carvalho, no documentário O Jardim das Aflições. Com clareza de pensamento, Olavo formalizava o tipo de aliança entre a grande mídia e o capital que viabilizou no Congresso a destituição da presidente Dilma Roussef. O rito foi cumprido à risca, mas embasado num castelo de cartas, sem sustentação jurídica, mas com sustentação política. O golpe, portanto, não era novidade – apesar dos protestos dos cínicos que dizem que não houve – e o que o filme expõe é o processo (kafkiano) que comandou todo o rito do impeachment, desde a aceitação da denúncia contra a presidente, por suas pedaladas fiscais, até a votação no Senado. É um épico de bastidores, e é bom que a câmera indiscreta de Maria Augusta nos traga de volta esses momentos que, embora recentes, parecem perdidos no imaginário e no tempo. O filme estreia em 17 de maio, e com certeza vai receber críticas ácidas. Maria Augusta ouve só um lado, etc e tal. Bobagem – o filme não é uma peça jornalística ‘isenta’. Toma partido. Seus ‘heróis’ são o advogado de Dilma, José Eduardo Cardozo, desmontando a peça jurídica de Antonio Anastasia e da advogada que formulou a denúncia contra a presidente; a senadora Gleisi Hoffman e o senador Lindbergh Farias. Certas figuras do outro lado tornam-se patéticas. O senador Aécio Neves, a advogada Janaína Paschoal. Dilma está no centro do filme, mas quase não aparece. Seu momento mais belo é fordiano. A grandeza dos derrotados. Na última sabatina no Senado, a presidente desmonta a pergunta capciosa do oponente e o faz rir – ‘É senador, a vida é dura.’ Gleisi é a personagem. Faz a autocrítica do PT, necessária para tentar avançar. Dilma despede-se pegando carona em Maiakovski. O filme narra uma batalha perdida – num jogo de cartas marcadas, daí a sombra de Kafka -, mas aposta no fato de que a guerra continua. O final, com a polícia armada disparando suas armas de intimidação, espelha o Brasil dividido de hoje.