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Luiz Carlos Merten

22 Junho 2010 | 13h54

Nunca fui muito fã de quadrinhos, reconheço, exceto pelo Príncipe Valente de Hal Foster e o Tarzan de Bruce Hogarth, que sempre amei. A suntuosidade do Hogarth, seu barroquismo na descrição daquela selva luxuriante e a sensualidade de suas figuras sempre atiçaram minha imaginação. Leitor contumaz de Edgar Rice Burroughs, lia os livros e ‘visualizava’ o desenho de Bruce Hogarth, imaginando como ele criaria as grandes personagens femininas da saga do homem-macaco. Não, não estou pensando em Jane, mas em La, a sacerdotiza de Opar, e em Nemone, a rainha da cidade do ouro. Estava há pouco pesquisando na internet pelo preço de um lançamento em DVD quando topei, no site da 2001, com a informação. A Lume está lançando ‘O Príncipe Valente’. Adoro o filme que Henry Hathaway realizou em 1954, com Robert Wagner na pele do herói e Janet Leigh como Aleta. James Mason fazia o vilão, o Cavaleiro Negro, e o filme ainda tem a beleza exótica de Debra Paget como o primeiro amor do cavaleiro, Ilene. Vi e revi muitas vezes ‘O Príncipe’ na TV. Dublado e, depois, legendado na TV paga, o filme sempre foi prejudicado pelo formato, o cinemascope, que não se ajusta às dimensões standards do vídeo. Mas, no fundo, nunca liguei para isso, porque sempre tive uma facilidade muito grande para viajar nas imagens. Dou toda razão a Jean Tulard, no ‘Dicionário de Cinema’, quando ataca críticos e historiadores que se recusam a colocar Hathaway no panteão dos grandes. Seus filmes de aventuras e westerns me apaixonam, e há o caso de ‘Peter Ibbetson’, Amor Sem Fim, de 1935, que fez a cabeça dos surrealistas. Hathaway foi diretor contratado na Fox antes de se bandear para a Paramount. Ele fez ‘O Príncipe Valente’ entre ‘Feitiço Branco’ e ‘O Jardim do Pecado’, entre a história da enfermeira Susan Hayward que tenta levar a medicina para a África tribal e a mesma Susan que, no western, é escoltada por trio de pistoleiros enquanto tenta socorrer o marido. Sempre achei os westerns de Hathaway complexos, mas o que me encanta no seu ‘Príncipe Valente’ é a aparente falta de ambição do relato, como se o cineasta e seu roteirista, o prestigiado Dudley Nichols, não estivessem nem um pouco preocupados em acrescentar algo mais às bidimensionalidade dos quadrinhos. Tudo parece raso, demasiado simples, como se, em vez de uma saga fundada nos valores medievais, o diretor estivesse construindo um western na Idade Média – e uma bangue-bangue sem a ambivalência de seus personagens do Oeste. Não sou nenhum especialista, mas o Príncipe evolui, segundo o traço de Foster, dos 11 aos 20 anos e, depois, senão me engano, aos 40. Isso não é muito frequente nas HQs, onde os personagens permanecem estacionários numa fase de suas vidas. Outro raro exemplo é Valentina, de Guido Crepax – que, me conta o Jota (Jotabê Medeiros), inspira uma personagem, a neta de Fernanda Montenegro, na nova novela de Sílvio de Abreu, ‘Passione’. O rigor iconográfico dos quadrinhos meio que é diluído no filme, mas eu confesso que gostaria de ver o Hathaway endoidar, como o próprio Foster, antes que predominasse a ‘seriedade’ e ele abandonasse os monstros pré-históricos com que recheou, num certo período, a sua versão de Camelot. Quantos devaneios  pelo Príncipe Valente. Quanto a Robert Wagner, Foster devia ter o ator em mente, ou alguém parecido, quando criou o personagem. Com aquele cabelinho ‘pagem’, é o próprio.