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O príncipe vagabundo

Luiz Carlos Merten

19 Agosto 2010 | 09h04

Há, sempre houve, um culto a Nicholas Ray. Wim Wenders talvez seja seu maior oficiante, porque, afinal, filmou a morte do diretor em ‘Nick’s Movie’, também chamado de ‘Lightning Over Water’. Mas Jean-Luc Godard e François Truffaut também amavam o ‘Rimbaud de Hollywood’ e Truffaut chegou a cunhar uma expressão célebre – ‘Johnny Guitar’ é mais do que um filme sobre cavalos. Eu também gosto muito de Nicholas Ray e sou capaz de defender até seus épicos, especialmente ‘55 Dias de Pequim’, que o ímpeto revolucionário levava minha geração a descartar nos anos 1960. O filme, sobre o colonialismo ocidental na China, na virada do século 20, terminava com a humanização do soldado interpretado por Charlton Heston, um gesto isolado – uma solução individual. Cada vez mais me inclino a pensar que Ray, lúcido ou visionário, antecipou o que iria ocorrer no nosso mundo globalizado. Gosto de Ray, de Samuel Fuller, de Anthony Mann, mas dos grandes diretores de Hollywood nos anos 1940/50 tenho de admitir, comigo mesmo, que meus preferidos, por uma questão de afinidade, são Richard Brooks e Robert Aldrich. Querendo falar sobre essa geração que se antecipou às mudanças da década de 1960, criticando o sonho americano, escolhi Aldrich como tema de um dos capítulos – ensaios? – do livro ‘Cinema, Entre a Realidade e o Artifício’. (Em Gramado, Emiliano Ribeiro, que integrava o júri de longas brasileiros, me soprou que utiliza meu livro em suas classes como professor de cinema. Legal!) De volta a Aldrich, sempre me atraiu a própria biografia do cineasta. Filho de um banqueiro da Costa Oeste – os Salles dos EUA? –, Aldrich se iniciou no cinema como assistente de Charles Chaplin e Joseph Losey, ambos suspeitos de atividades anti-americanas e, como tal, os dois tiveram de se exilar na Europa durante o macarthismo. Sempre gostei, em Aldrich, do que para outros poderia ser seu maior defeito – a truculência. Seus grandes filmes de gêneros no triênio 1954/56 – ‘Apache/O Último Bravo’, ‘Vera Cruz’, ‘A Morte Num Beijo’, ‘A Grande Chantagem’ e ‘Attack/Morte sem Glória’ – foram incensados pela crítica, mas ouso dizer que prefiro as refilmagens (mais ou menos disfarçadas), quando Aldrich, após uma má fase, ressurgindo das próprias cinzas, refez seus clássicos como ‘espetáculos’, em filmes como ‘Os Doze Condenados’, ‘A Lenda de Lilah Clare’, ‘Triângulo Feminino’, ‘Resgate de Uma Vida’, ‘A Vingança de Ulzana’. Logo depois desse último surgiu ‘O Imperador do Norte’, que agora está sendo resgatado em DVD pela Cult Classics. A aventura ‘londoniana’ de Aldrich pega carona em ‘De Vagões e Vagabundos’ e Jack foi um socialista que expressou, em seus relatos de ação, uma consciência social muito forte (e rica). ‘O Imperador’ passa-se em 1931, em plena depressão econômica. O conflito principal dá-se entre o vagabundo Lee Marvin e o fiscal da ferrovia, Ernest Borgnine, cuja missão na vida é impedir que desempregados tomem os trens de graça. Há algo de irracional nesse conflito brutalmente físico entre os dois – e Borgnine nunca foi melhor, com um sorriso sardônico que meio que o demoniza, como personagem de cartum. O duelo final é em cima do trem, uma coreografia de machados que me leva a crer que Aldrich viu, com certeza, ‘Sete Noivas para Sete Irmãos’, o musical clássico de Stanley Donen. Em vários momentos de sua carreira, Aldrich, loseynianamente, se voltou para ambientes concentracionários e fechados (‘Morte sem Glória’, ‘O Que Terá Acontecido a Baby Jane’ etc). Aqui, embora a ação se passa quase toda no trem, ou ligada a ele, os ambientes são abertos e a locomotiva atravessa planícies de Oregon – só para constar, Aldrich usou um trem autêntico de 1910 e filmou nos mesmos cenários de ‘A General’,a comédia cult de Buster Keaton. Mas há um conflito que me interessa muito em ‘O Imperador do Norte’ e é o que se estabelece entre o vagabundo veterano (Marvin) e o jovem (Keith Carradine). Numa cena, não saberia reproduzir exatamente o diálogo, Marvin diz que Carradine poderia ser um bom vagabundo – e o termo, bump, carrega um sentido de contestação, como tinham os vagabundos de Chaplin –, mas não será jamais porque não tem ‘classe’. É maravilhoso, o detalhe autobiográfico, quando Aldrich trai a origem familiar e eu agora, pensando na família Salles, me lembro de Santiago, o mordomo, que, mais até do que o pai banqueiro, talvez tenha sido a influência decisiva sobre Walter e, especialmente, João (o documentário não nega).Cheguei ontem à noite em casa, depois de jantar com meus amigos Dib Carneiro, Regina Cavalcanti e João Luiz Sampaio – mais o Francisco Quintero, de passagem por São Paulo, antes de retornar a Nova York. Terminamos cedo e eu fui para casa, cheio de expectativa para rever ‘O Imperador’. Liguei a TV e estava no jogo do Inter. Cinco minutos do segundo tempo, 1 a 0 para o Chivas. Dei sorte, porque começou a virada e eu não desliguei mais do jogo, minha alma colorada vibrando com aquele inacreditável gol de Juliano, quando ele passou com a bola pelo meio dos dois adversários. O que foi aquilo? Falha da defesa mexicana? Lance de gênio do jogador? Após o jogo, coloquei o DVD. Disse comigo mesmo que ia ver um pedaço. Vi os 118 minutos sem tempo de pestanejar, que dirá sentir cansaço. Lee Marvin, esfarrapado – parecia saído de ‘Vinhas da Ira’, o clássico fordiano –, tinha a elegância de um príncipe. P… filme!