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Cultura » O primeiro Orfeu a gente não esquece

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Luiz Carlos Merten

14 Julho 2008 | 12h42

Pedi, na cara dura, à minha colega Eliana de Souza, pauteira do Caderno 2, que postasse um comentário, qualquer um, para quebrar o jejum. Há vários dias – e muitos posts – que ninguém comenta nada no blog. Ó céus, vocês me abandonaram? Pelo visto, não, porque quando a Eliana foi salvar seu comentário ele desapareceu. Tecnologia é ótimo(a), mas não dá para confiar, já antecipava Kubrick em ‘2001’, há 40 anos. Volto aos posts e começo justamente por uma morte, a de Breno Mello. Há 49 anos, Breno, um ex-jogador do Renner, de Porto Alegre, virou astro internacional de cinema, ao ser escolhido por Marcel Camus para estrelar ‘Orfeu Negro’, que o cineasta francês realizou no morro do Rio, adaptando a peça ‘Orfeu da Conceição’, de Vinicius de Moraes. Breno contracena com a norte-americana Marpessa Dawn, que Camus escolheu para ser Eurídice, no filme que transpõe o mito grego para as favelas cariocas. Léa Garcia e Lourdes de Oliveira estão no elenco, e outro nome ligado ao esporte, Adhemar Ferreira da Silva, faz a morte que o herói enfrenta na tentativa de resgatar sua amada do inferno, mas Orfeu, se pode seduzir as divindades com seu canto, não resiste e olha para trás, o que provoca sua perdição (e a de sua Eurídice). Em 1959, em plena erupção da nouvelle vague, o movimento de renovação do cinema francês, Marcel Camus ganhou a Palma de Ouro em Cannes, derrotando um dos arautos do movimento, François Truffaut, que teve de se contentar com o prêmio de direção para ‘Os Incompreemndidos’, e o precursou (da nova onda) Alain Resnais, premiado pela crítica pelo monumento ‘Hiroshima, Meu Amor’. No Brasil, que logo em seguida assistiria ao nascimento do Cinema Novo, o filme de Camus foi execrado, considerado folclorização da nossa miséria e por aí afora. Fora daqui, sempre houve um culto a ‘Orfeu Negro’, também conhecido como ‘Orfeu do Carnaval’, e Spike Lee é apenas um dos autores que dizem que foi este o filme que despertou nele a paixão do cinema. ‘Orfeu do Carnaval’ surgiu num momento de efervescência. A trilha inclui clássicos da Bossa Nova – ‘A Felicidade’, ‘Manhã de Carnaval’, ‘Canção de Orfeu’ -, assinados por Vinicius, Luis Bonfá e Tom. É o filme mais lindo do mundo para se ouvir e eu, por mais que respeite e admire Cacá Diegues, não tenho certeza de que ‘Orfeu Negro’, que Cacá fez como reação à versão de Marcel Camus, seja melhor. Vi o filme de Cacá diversas vezes, mas creio que vi mais ainda o de Camus, e nunca deixei de me emocionar com ‘Manhã de Carnaval’, que me toca fundo. Breno não fez carreira como ator, não prosseguiu no futebol. O sucesso internacional do filme não o ajudou muito, como acho que também não ajudou Marpessa Dawn (que sumiu). Breno não era tão bonito como Toni Garrido. Embora jogador de futebol, ele fazia um Orfeu mais pesado, mais bruto, mas tinha physique du rôle (e até o temperamento) para o papel. Eliana, que me falou da morte dele, acrescentou que Breno Mello morava sozinho no bairro ‘Tristeza’, de Porto. O bairro existe, fica na Zona Sul da cidade e de triste mesmo só tem o nome. Fornece, de qualquer maneira, um fecho melancólico sobre o post que se pode escrever sobre Breno.