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O pré-Infiltrados

Luiz Carlos Merten

27 Janeiro 2007 | 21h21

Ontem de manhã, aguardava que me ligassem da Rádio Eldorado no meu quarto de hotel (a Pousada Don Quixote, em Tiradentes) para entrar ao vivo no programa do Leandro, no qual tenho meu espaço às sextas-feiras, para comentar as estréias. Enquanto esperava, dei uma zapeada na TV. Entrou o Robert de Niro, num diálogo com Frances McDormand. Parei para ouvir o que diziam e fui fisgado. Fiquei até o final. O filme já havia começado. Pelo que vi, calculo que já tivesse uma meia-hora. De Niro, na pele de um policial, contava como era ter sido filho de um criminoso, o que o obrigava a ter de provar para os outros (e para ele mesmo) que não era como o pai. Êpa – mas isso é o Leonardo DiCaprio em Os Infiltradosz, no qual Leo interpreta (e é por isso que o prefiro em Diamante de Sangue) um De Niro mais jovem. Na seqüência, entendi que o drama atravessava gerações e que o filho do De Niro, um garoto drogado, a quem ele abandonou na infância (como seu pai o abandonara), estava sendo acusado de matar um tira e, por isso, se havia transformado em alvo de uma caçada de morte. O filme tem diálogos ótimos e as relações humanas, entre pais e filhos, são muito fortes. No desenvolvimento da trama, a dramaturgia vai ficando, digamos, um tanto esquemática, numa linha mais ‘comercial’, mas sem perder a força. Gostei de ter visto o filme, até porque fortaleceu o que não gosto em Os Infiltrados. Scorsese anda muito atrapalhado para falar da falta de ética da sociedade americana atual (e que é o tema da sua trilogia com Leonardo DiCaprio). Não sei, não, mas acho que o grande Martin não se baseou só no filme do Andy Lau para fazer Os Infiltrados. Alguém, ele ou seu roteirista, deve ter visto também o filme a que assisti na TV, em Tiradentes. Vi mais de uma hora de filme e não apareceu uma (nem uma só!) vez o título. Quando terminou, fui pesquisar na internet. Chama-se A Cidade do Passado e é um filme de Michael Caton-Jones, um diretor inglês médio, mas que faz filmes interessantes (alguns bons), numa estética ‘à moda antiga’ que não perdeu sua eficácia. Já antecipo o vendaval de críticas que vou receber, por gostar mais de um filmezinho desses do que de um do Scorsese, que, não me lembro mais quem escreveu nos comentários, é o esplendor da mise-en-scène. Tô fora desse esplendor fake. Tava dentro 10 ou 15 anos atrás, não agora. A favor de A Cidade do Passado, tenho de acrescentar que, há tempos, não via De Niro tão bom. Suas cenas com Frances McDormand tinham algo da intensidade do Kazan – a mulher que adoça a violência e amargura do homem. E o filho é James Franco, de quem gosto muito (em Tristão e Isolda, O Homem-Aranha 1 e 2 e aqui, no filme de Caton Jones). É talentoso, o garoto, mas acho que é daqueles atores que não vão estourar na carreira. Gostaria de estar enganado. Gostaria de acreditar que ele vai estourar.

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