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Luiz Carlos Merten

03 Janeiro 2011 | 11h00

Mauro Brider me pede que comente ‘O Pequeno Rincão de Deus’, que viu em DVD (e do qual gostou muito). Anthony Mann fez o filme em 1958, baseado no romance de Erskine Caldwell. Nunca li esse escritor, que no meu imaginário virou um sub-Faulkner, porque as histórias de ambos têm muito a ver, passadas num Sul decadentista. Posso até estar sendo injusto, mas Faulkner criou um condado imaginário para refletir sobre a complexidade de condição humana, Caldwell escolheu falar do branco pobre, mais racista ainda do que o aristocrata sulista, porque tinha de disputar o pão de cada dia com o afro-americano. Caldwell era desbocado e obcecado por sexo, como se percebe nas adaptações que Hollywood fez de seus livros – o filme de Mann, claro, e o de John Ford que o precedeu, ‘Tobacco Road’, Caminho Áspero, de 1941. Na trajetória de Ford, ‘Tobacco’ surgiu logo em seguida e quase como uma consequência das preocupações sociais de ‘As Vinhas da Ira’, adaptado de outro autor que também tinha suas similaridades com Caldwell, John Steinbeck. Embora Nunnally Johnson tenha ‘asseptizado’ Caldwell para John Ford, Gene Tierney é arrasadora de sensualidade e tem muito a ver com a Tina Louise de ‘God’s Little Acre’. Tina Louise! Ela passou como um furacão de sensualidade pelo cinema norte-americano da segunda metade dos anos 1950, mas não era a sensualidade glamourizada de MM. Não era a idealizada vizinha (‘O Pecado Mora ao Lado’), mas a tramp, a vagabunda pobretona e ligada à terra. Robert Ryan, que faz o protagonista de ‘O Pequeno Rincão de Deus’, não trocaria seu cantinho de terra por nada no mundo. É aqui que ele tiraniza a família – os filhos, a nora –, obrigando a todos a cavar, em busca de um tesouro imaginário, e chegando ao extremo de sequestrar um albino, porque acha que ele saberá encontrar o local exato da fortuna escondida. O filme foi feito entre dois westerns de Mann, ‘O Homem dos Olhos Frios’ e ‘O Homem do Oeste’, numa fase em que o diretor havia encerrado sua associação com James Stewart e tentava novas parcerias (com Henry Fonda e Gary Cooper). Acho o caso de Mann muito interessante. Bertrand Tavernier e Jean-Pierre Coursodon esculpiram o mito dos westerns de Mann como o que de mais perfeito e puro o gênero produziu, mas tenho para mim que essa definição se aplica muito mais à parceria entre Budd Boetticher e Randolph Scott. Os westerns de Mann são volta e meia contaminados pela psicanálise, pela sensualidade e até pelo melodrama. Seus personagens são desmesurados e é por isso que um ator sóbrio como Stewart era tão necessário para ele. A crítica caiu matando em ‘O Pequeno Rincão de Deus’. Tavernier vê no filme a soma dos excessos do diretor e eu acho que foi a busca do classicismo e da harmonia (perdidas?) que levou Mann à Espanha para fazer o genial ‘El Cid’ e, depois, ‘A Queda do Império Romano’, cuja cena final, cada vez me convenço mais, foi a origem de ‘Terra em Transe’. Glauber gostava de westerns, mas naturalmente que isso não é bom para sua biografia de revolucionário. ‘A Queda’ radicaliza os excessos de ‘Pequeno Rincão’ e o próprio Mann legitima isso fazendo com que o homem excepcional, o sucessor do Cid na sua obra (o imperador Marco Aurélio de Alec Guinness), morra logo na abertura do filme. Estou falando de ‘O Pequeno Rincão de Deus’ com uma visão muito longínqua do filme, a que assisti na época (ou pouco depois). Confesso que nunca tive muito apreço pelo filme. Não o colocaria entre os meus favoritos do diretor – os épicos ‘El Cid’ e ‘A Queda do Império Romano’ (apesar dos desequilíbrios narrativos), os westerns ‘Winchester 73’, ‘O Preço de Um Homem’ (The Naked Spur) e ‘Um Certo Capitão Lockhart’ (The Man from Laramie) e aquela delirante incursão pela Revolução Francesa, ‘À Sombra da Guilhotina’, sobre a queda de Robespierre. Em homenagem ao Mauro, vou tentar rever ‘O Pequeno Rincão de Deus’. Não seria a primeira vez que um filme ‘menor’ iria crescer no meu imaginário.