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Cultura » O pequeno fugitivo Richie Ambrusco

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Luiz Carlos Merten

22 Fevereiro 2009 | 13h09

Preciso de um banho para me tonificar, porque o dia hoje vai ser longo, com direito a madrugada de Oscar, mas antes quero dizer duas ou três coisas sobre ‘Le Petit Fugitif’, antes que o filme encante e eu nunca escreva sobre ele. Já contei de minha surpresa quando fui ver ‘O Mensageiro do Diabo’ (The Night of the Hunter), de Charles Laughton, em janeiro, no Reflets Médicis – integrando a programação que a sala parisiense do Quartier Latin dedica, ao longo do primero semestre, aos cem mais belos filmes do mundo -, e vi aquele cartaz do ‘Fugitivo’ com a frase de François Truffaut que dizia que a nouvelle vague não teria existido, se Morris Engel, Ray Ashley e Ruth Orkin não tivessem apontado o caminho. Descobri depois que John Cassavetes era louco por ‘The Little Fugitive’ e também dizia que o filme foi decisivo para que ele virasse autor de cinema independente em Nova York. Cheguei a voltar a Paris, após a Berlinale, só para ver ‘O Pequeno Fugitivo’, mesmo numa versão dublada em francês, porque o objetivo é mesmo apresentar o filme a uma nova geração de lycéens franceses, inclusive transformando ‘Le Petit Fugitif’ em material de apoio didático às atividades escolares. Patricia, mulher de Adhemar Oliveira, bem poderia trazer o filme para seu projeto cinema/escola. Mas, enfim, deixem-me voltar ao filme. ‘O Pequeno Fugitivo’ é destaque na edição de fevereiro de ‘Cahiers du Cinéma’, que soma a uma série de textos (que não li) sobre o filme, um de André Bazin, escrito no calor da hora, quando o ‘Fugitivo’ concorreu e foi premiado no Festival de Veneza de 1953. Este, eu li, e com prazer. Naquele ano, o júri de Veneza não atribuiu o Leão de Ouro, mas deu cinco Leões de Pata de excelência artística. Vejam que júri mais exigente. Os leões foram para filmes que qualquer juri, hoje em dia, ficaria honrado de premiar com o ouro – ‘Contos da Lua Vaga, de Kenji Mizoguchi; ‘Os Boas Vidas’, de Federico Fellini; ‘Moulin Rouge’, de John Huston; ‘Thérèse Raquin’, de Marcel Carné; e ‘The Little Fugitive’. Só esse último e o (hoje) clássico de Mizoguchi foram aplaudidos pelo público na hora do anúncio, informa Bazin, que vê no trabalho superindependente de Engel, Ruth e Ashley, produzido a troco de banana – por um punhado de dólares -, a renovação do ‘gênero’ filme para crianças, tal como havia sido formatado por Hollywood. Bazin situa ‘The Little Fugitive’ no plano de ‘Brinquedo Proibido’, de René Clément, premiado um ano antes, também em Veneza (e sobre o qual falei bastante aqui, quando o filme passiou na TV paga, há um par de meses, ou menos). ‘The Little Fugitif’ conta a história de um menino que pensa que matou o irmao, por acidente, e foge para a praia (Coney Island). O irmão, que só queria se livrar dele para sair com os amigos – a mãe está cuidando da avó enferma -, fica desesperado e inicia uma busca, enquanto o herói, Joey, deambula na praia, juntando garrafas vazias de Coca-Cola para ganhar uns trocados. Nada acontece. Nada? ‘The Little Fugitive’ é um daqueles filmes em que nada é tudo e Bazin, neo-realista de carteirinha, vê na obra a celebração da modernidade anunciada pelo roteirista Cesare Zavattini, para quem o filme, como fatia de vida, não devia (ou precisava) prender-se a gêneros. ‘O Pequeno Fugitivo’ é encantador, mas nossa empatia (a minha, pelo menos) com ele deve muito ao ator que faz o papel, Richie Ambrusco. Poucas crianças no cinema conseguem ser tão boas. Espero que nossos distribuidores (independentes) façam o favor de trazer ‘O Pequeno Fugitivo’ para o Brasil. Vocês merecem ver o filme, e eu mereço revê-lo.