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Luiz Carlos Merten

16 Outubro 2007 | 09h33

Fui ver ontem pela manhã ‘O Passado’ e, ao contrário do que faço normalmente, não encarei o desafio de já sair falando sobre o filme que Hector Babenco adaptou do romance do argentino Alan Pauls, irmão do ator Gastón Pauls (de ‘Nove Rainhas’). O filme, sobre um personagem portenho, é falado em espanhol. Após o fenômeno ‘Carandiru’ – quarta maior bilheteria do cinema brasileiro da Retomada; deve estar virando a terceira, com o sucesso de ‘Tropa de Elite’ –, Babenco retoma a vertente mais intimista de ‘Coração Iluminado’. Sei que tem gente que gosta – meu colega Luiz Zanin Oricchio, por exemplo –, mas eu acho ‘Coração Iluminado’ o osso mais duro da carreira do Hector. Posso ter ficado desconcertado com ‘O Passado’, mas acho que, aqui, a mise-en-scène é muito mais rica. Babenco foi visceral na abordagem do amor, não sendo por acaso que seu filme contenha tantas referências a Truffaut, especialmente a ‘Adèle H’. O ponto do filme é que o amor pode ser recíproco, mas o momento em que as pessoas deixam de se amar raramente é. Em casos de separação, sempre tem alguém que quer abandonar a relação antes, o que pode produzir todo tipo de reação no outro, ou na outra. Quem nunca vivenciou isso? A mulher de ‘O Passado’ pira e permanece na vida de Rimini (o personagem de Gael García Bernal). Vira obsessiva como a Isabelle Adjani de ‘Adèle H’, que ama sem ser correspondida. De novo, mas por motivos diferentes, acho ‘O Passado’ melhor nas partes que no todo, mas não pelos mesmos motivos de ‘Carandiru’. Lá, eu não gosto da estrutura narrativa, todos os episódios empilhados em torno ao personagem do médico, coisa que Drauzio Varella resolveu bem melhor no livro e que Dib Carneiro Neto, em sua peça ‘Salmo 91’, também solucionou de uma forma radical, extirpando o médico do seu texto. Aqui, tudo é maravilhoso, mas o filme não deu liga comigo pela própria natureza dos personagens. As mulheres são loucas e possessivas, o homem é fraco. O que achei melhor foi o fim, sobre o qual não quero falar porque pode tirar a graça. Alguns de vocês vão conferir o final já na quinta-feira, quando ‘O Passado’ abrir a Mostra Internacional de Cinema. Logo em seguida, creio que na sexta da próxima semana, o filme estará estreando nos cinemas. Já ouvi a pérola de que o mundo está cheio de gente assim, mas o mundo está cheio de todo tipo de gente, que anima todo tipo de ficção ou documentário. Não é por aí que a gente gosta, ou deixa de gostar, de um filme. Curiosamente, saí do cinema pensando em outro filme de relação terminal – ‘Felizes Juntos’, do Wong Kar-wai. Lá, o par era homossexual e antes que me digam que o caso é diferente, não é – o dilaceramento é o mesmo e o Kar-wai não é nenhum militante gay. Pelo contrário, deve-se a ele um dos mais belos filmes sobre as relações entre homens e mulheres – ‘Amor à Flor da Pele’, claro (que pode ser genial, e é, mas é menos extremo do que ‘Felizes Juntos’). Não quero ser conclusivo sobre ‘O Passado’. Diego Luna me havia dito no Rio que era muito duro, e é. Preciso rever ‘O Passado’ antes de fincar pé numa posição, embora tenha a sensação de que vou ficar sempre dividido em relação ao filme – acho brilhante como cinema, mas não me sinto tocado pelos personagens. Dizer que eles me incomodam não corresponde totalmente à verdade. A função da arte é incomodar? Entre outras coisas, sim, pode ser, mas Van Gogh achava que a função da arte é consolar e Rainer Maria Rilke, o grande poeta, tem aquele verso que diz que homem e mulher não deveriam guerrear por suas diferenças, mas fazer a trégua e se unir para suportar a pressão (ou é a dor? Qual é o termo que ele usa?) da difícil sexualidade que lhes foi imposta. Mais do que incomodado, achei aquela gente muto desagradável. Engraçado é que li numa entrevista que Ariel Ramirez fez, no ‘Caderno 2’, com o Alan Pauls que ele demorou a encontrar o título do livro. Pauls pensou em várias alternativas antes de chegar ‘O Passado’. ‘A Mulher Zumbi’ (coisa de filme B americano), ‘Ex’… Finalmente, optou por ‘O Passado’. Eu chamava logo ‘O Inferno’, se o título – ‘L’Enfer’, rebatizado como ‘Ciúme, o Inferno do Amor Possessivo’ – já não pertencesse a um filme do Chabrol com Emmanuelle Béart e, quem era mesmo? François Cluzet? Mas, ah, sim, ‘O Passado’ tem a última participação de Paulo Autran. Como Suzanne Flon no recente ‘Um Lugar na Platéia’, de Danièle Thompson, pode ser mera coincidência – ninguém poderia imaginar que um e outra fossem morrer antes da estréia –, mas o que dizem, e fazem, é maravilhoso.