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Cultura » O paraíso dos cinéfilos

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Luiz Carlos Merten

17 Fevereiro 2009 | 15h48

Tenho alguns pedidos antigos de informações – alguém, por exemplo, pegou carona no post sobre John Sturges para pedir a opinião do próprio diretor, no livro que comprei sobre ele, a respeito de ‘Bad Day at Black Rock’, ou ‘Conspiração do Silêncio’, que ostenta a fama de ser um de seus melhores filmes. Não me lembro se foi o Fábio Negro, mas outro habitué, confessando que gostou mais do que eu de ‘Operação Valquíria’, também disse que o filme de Bryan Singer lhe lembrou ‘A Águia Pousou’, o último de Sturges, sobre a tentativa (frustrada, como a de Hitler) de assassinato de Winston Churchill pelos nazistas. Neste caso, fui eu que fiquei com vontade de conferir o que diz o diretor, mas vou ficar devendo agora. Só para matar vocês de desejo, vou enunciar os seis – seis! – filmes que vi em dois dias, domingo e segunda, em Paris. No ciclo dos 100 Mais Belos Filmes – que originou um livro editado por ‘Cahiers du Cinéma’ –, olhem só: ‘Uma Rua Chamada Pecado’ (A Tramway Named Desire), de Elia Kazan, que nunca tinha visto no cinema; ‘A Roda da Fortuna’ (The Band Wagon), de Vincente Minnelli, uma coisa de louco; ‘Rastros de Ódio’, do mestre John Ford, que na França se chama ‘La Prisionière du Desert’; e ‘Johnny Guitar’, de Nicholas Ray. Ver esses filmes em salas, cópias zero bala, foram experiências inenarráveis, porque cada um deles veio acompanhado de lembranças de amigos queridos que se foram. Lembrei-me muito de Tuio Becker e de Jefferson Barros, a propósito de ‘Johnny Guitar’. Tuio, como eu, amava o western de Nick Ray. O que é a cor do filme? E a música de Victor Young? E a cena em que Joan Crawford diz a Sterling Hayden – ‘Vienna’s closed, Mr. Logan’ –, pelamor de Deus… ‘Johnny Guitar’ tem todo aquele subtexto antimacarthista, mas o que me fascinou, mais uma vez, foi como o grande autor subverte os códigos do western para melhor sublimar seu amor pelo gênero. Como o Jefferson, tão brilhante e inteligente, não percebeu isso e rechaçou o filme por não seguir o figurino do western tradicional, que atribuía papéis bem definidos a homens e mulheres? Aqui, eles são pulverizados (esses papéis…) pelo embate entre Joan Crawford e Mercedes McCambridge e são elas que partem para o pau, no duelo final. Vi também ‘L’Autre’, que deu a Dominique Blanc o prêmio de melhor atriz em Veneza, no ano passado, e… Tã-tã-tã, ‘The Little Fugitive’, relançado em cópia nova, versão francesa, ‘Le Petit Fugitif’, para atrair os ‘lycéens’. Vi o filme numa sala cheia de pré-adolescentes, como atividade didática. ‘Cahiers’, em sua edição de fevereiro, dedica várias páginas de análise ao clássico que o próprio Truffaut considerava a pedra de toque da nouvelle vague. A edição inclui o texto, magnífico, que André Bazin dedicou ao filme, no calor da hora, quando concorreu em Veneza (e foi premiado…), em 1953. Podia ter ficado mais dias em Paris. Teria tentado ver três, quatro filmes por dia. Aquilo lá é o paraíso dos cinéfilos.