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Luiz Carlos Merten

13 Dezembro 2008 | 11h59

Éramos seis, como no romance famoso da sra. Leandro Dupré, que Rubens Ewald Filho transformou em novela, mas essa seria outra história, como diz Moustache, o genial Lou Jacobi, em ‘Irma la Douce’, de Billy Wilder, que passa amanhã à tarde no Telecine Cult. Jean Tulard considera ‘Irma la Douce’ execrável, mas eu tenho a impressão que nunca vimos o mesmo filme. O meu é ótimo, cheio de momentos inspirados e eu me lembro sempre do ex-policiaol, agora transformado em gigolô, Nestor (Jack Lemmon), dizendo a Irma (Shirley MacLaine) que ela precisa parar de emendar um no outro e eles falam de cigarros, mas nas verdade o que consome o ex-tira são os clientes que não para de chegar para a sua amada prostituta. Éramos seis na Sessão Cinéfila do Espaço Unibanco que exibiu ‘Dois Destinos’, o genial ‘Cronaca Familiare’, e até hoje Paschoal da Conceição – ele está maravilhoso em ‘Calígula’ – me agradece a indicação da obra-prima do Zurlini, que foi um dos melhores filmes que ele viu. Ontem, contava a Pastria, mulher do Adhemar OLiveira, sobre a Sessão Cinéfila do Espaço. Sempre que fui, meio-dia de sábado, era uma coisa caída, dez espectadores, se tanto. Onde andam os cinéfilos? Patrícia me garantiu que a coisa melhorou porque ela integrou a Sessão Cinéfila ao Clube dos Professores e agora tem dado uma média de 30/40 espectadores. Pergunto de novo – cinéfilos, onde andam vocês? Onde andamos nós, já que eu próprio não tenho ido aso horário tanto quanto gostaria. Queria ter revisto, há pouco, os filmes de John Cassavetes, ‘Uma Mulher sob Influência’ e ‘Noite de Estréia’, até por causa de ‘Feliz Natal’. Reclamei no blog e, depois no texto do jornal, sobre a intensidade das cenas, a câmera que aprisionava os atores do longa de estréia de Selton no quadro e ele, gente finíssima, ironizou – disse que estava seguindo uma indicação de meus textos e blogs, quando eu elogiava o cinema ‘atoral’ e ‘autoral’, o cinema obsessivo de Cassavetes, justamente por isso. Quer dizer que o gringo podia e ele não? Selton Mello fez ‘Noite Natal’ numa época em que não apenas ele, mas também o o fotógrafo Lula Carvalho estava apaixonado por Cassavetes. Pois bem, o que ajudou Cassavetes na Sessão Cinéfila foi a incorporação do Clube do Professor, porque senão seus filmes ficariam às moscas. Não se esqueçam hoje de Nicolas Philibert, com ‘O País dos Surdos’. O filme trata disso mesmo – de surdos. Como fazer com que pessoass ditas normais compartilhedm o mundo do silêncio? Iniciei este post direcionado para chegar aqui, mas agora me veio outra coisa, outra história, como poderia dizer Moustache. Assisti, no começo dos anos 60, a um filme japonês, em preto-e-branco. Lembro-me até do cinema, o Cacique, em Porto. Chamava-se ‘A Felicidade Está em Nós’, de Zenzo Matsuyama, com a mulher dele, Hideko Takamine, grande atriz japonesa da época (uma ‘estrela’). Zenzo era roteirista – acho que foi um dos adaptadores de ‘Guerra e Humanidade’ (A Condição Humana), do meu amado Masaki Kobayashi. O filme contava a história de um casal de surdos mudos. Numa noite, a casa era assaltada por um ladrão – noite de inverno, nevosa. O bebê acordava e ia engatinhando até a porta de bambu, que ficara aberta. Caía, e morria enregelado. Imagino, a posteriori, que o filme devia ser muito melodramático, mas a idéia do diretor era ir além desse desespero, e desse luto. Por meio da linguagem de sinais, Hideko e seu marido na ficção – não me lembro quem ele era – descobriam e expressavam que tinham de se unir, que a felicidade, dadas as suas limitações, era uma luta diária que precisavam levar. ‘A Felicidade Está em Nós’ foi uma daquelas dezenas/centenas de filmes japoneses a que assistia em Porto Alegre. Tudo misturado – os épicos de Kurosawa, o monumental estudo da condição humana (e da guerra) de Kobayash, os melodramas de Mikio Naruse, os filmes de sabre de Tomu Uchida e logos os primeiros filmes da nova onda do Japão, de Nagisa Oshima. ‘A Felicidade Está em Nós’ faz parte dessas lembranças. P… filme triste.