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Cultura » Ó Paí (3)

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Luiz Carlos Merten

26 Março 2007 | 11h38

Nunca vi nada nada parecido com a abertura de Ó Paí Ó. O inverso de um movimento alto de câmera. Ela mergulha, no alto do Pelourinho, para acompanhar o rebolado daquela baiana gostosa que já é candidata a mito sexy do cinema brasileiro atual. Na sexta, quando vi o filme da Monique Gardenberg, meu referencial recente de bunda brasileira ainda era a da Paula Braun em O Cheiro do Ralo. A da Emanuelle Araújo, em Ó Paí, não tem aquela redondice toda, mas é outra exibição de exuberância feminina de parar o trânsito. O corte nos lança no interior da oficina em que o Lázaro Ramos está cantando e dançando. Gosto dessas manifestações do corpo. O começo de Ó Paí já me deixou elétrico. O que se segue é uma ciranda de personagens que se cruzam no Pelourinho – e a maioria habita o cortiço controlado com mão de ferro por uma crente que, olhem o sincretismo brasileiro, tem um par de filhos que se chamam Cosme e Damião, santos que transitam entre a Igreja Católica e o candomblé. A crente tenta enfiar o catecismo na cabeça dos meninos. Eles preferem viver na farra, aplicando pequenos golpes, como meninos de rua. Lázaro Ramos faz um artista que ganha a vida pintando (qualquer coisa, desde o corpo da baiana gostosa até os carrinhos que Wagner Moura lhe encomenda, mas não quer pagar) e a ronda de personagens inclui Dira Paes como a mulher que voltou do estrangeiro, mas há uma certa dúvida sobre se ela come mesmo escargot ou se come m… lá fora, mais uma cartomante, um motorista de táxi, um travesti, a baiana gostosa e sua tia sapata e o dono de uma loja de artigos turísticos, que preocupado com seu negócio contrata um segurança. Toda essa gente é flagrada durante o carnaval e o filme se constrói em torno da música, do sexo e do direito à diferença. Teve momentos em que eu realmente estava achando que o filme poderia descambar (ou talvez já fosse…) um comercial da axé music e do carnaval da Bahia, mas aí vinham sempre aqueles momentos por meio dos quais cada personagem tem direito, senão a seus 15 minutos de celebridade, a seus 15 minutos de intensidade. A cena em que Wagner Moura provoca Lázaro, chamando-o de negrão e o Lázaro reage com aquele discurso inflamado me pegou desprevenido. Nunca vi o cinema brasileiro peitar o racismo daquele jeito (talvez esteja esquecendo algum filme, não sei). Grande Lázaro! A apreeensão de Dona Joana, a crente, com o sumiço dos meninos e as brincadeiras inocentes de Cosme e Damião na outra ponta começaram a me deixar inquieto. Sem conhecer a peça, achei que a tragédia poderia vir dali. Quando ela, desesperada, vai à cartomante e lhe pede que tire as cartas para ver o que está ocorrendo, não pensei só – de novo – no sincretismo religioso e cultural, mas em Babel, do Iñárritu, com sua idéia de que a tragédia nos torna solidários. Ó Paí é o nosso Babel. O diretor mexicano acha que só a tragédia nos une. Monique acha que o carnaval nos aproxima e democratiza. Ela não filma o carnaval do Rio, para gringo ver na Sapucaí, mas o das ruas de Salvador, com cara, cheiro e espontaneidade de povo. É a nossa festa de Dionísio. Homens vestidos de mulheres, sapatas, travestis, todo mundo unido. Até Dona Joana quer saber de Dira detalhes picantes de sexo dos europeus. Quando Luciana Souza, que faz o papel, tem sua grande cena – aquela cena –, o que me veio, apesar de toda cor, do artifício e da música, foi a mesma emoção da corrida de Anna Magnani em Roma, Cidade Aberta, um monumento do neo-realismo. Realidade, artifício, tudo se mistura e a mentira, como dizia Orson Welles, termina sendo a melhor forma de chegar à verdade. Honestamente, ainda não sei se gostei de Ó Paí, mas o que sei é que quero ver o filme de novo, e de novo. A mistura de estéticas, a unidade na diversidade da interpretação dos atores – muitos, ou quase todos, me informaram, fizeram a versão teatral –, tudo isso mexe muito comigo. E o filme, como diz o Welington, é divertido. Acrescento que é debochado, emocionante, injusto, sensual, violento, triste – como a vida, não? Existem filmes que me impactam. Até hoje não sei se gosto de A Paixão de Cristo, mas poucos filmes mexem tanto comigo e eu já devo ter visto, entre cinema e TV, completo ou só em parte, umas 30 vezes o filme do Mel Gibson (que agora está saindo em DVD na versão do diretor, pela Fox). Na minha cabeça, faço uma ponte, vejam só, entre o Cristo e o Che. É um manual da brutalidade para quebrar o idealismo e a fé. E tem aquele olho, o do Cristo, ferido, mais o olho do câmera e o de Deus, no desfecho, que me deixam louco. É assim que vejo A Paixão de Cristo e isso, se tem a ver com os Evangelhos, tem mais a ver com o aqui e agora, que me interessa mais. Tem filmes que gosto e esqueço. Tem outros que não sei se gosto e ficam comigo. Acho que Ó Paí vai ficar, pelo menos por um bom tempo.

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