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Cultura » Ó Paí (2)

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Luiz Carlos Merten

26 Março 2007 | 10h33

Me lembro que, quando assisti ao curta…, da Monique Gardenberg – era naquela época em que o cinema brasileiro estava reduzido quase que só ao formato –, a informação que me deram é de que era um curta portfólio. Ou seja – Monique, que atuava mais na área da música, como empresária, estava só mostrando sua habilidade como diretora com vistas a um projeto longo. Realmente, em seguida surgiu Jenipapo, que eu achei a negação do portfólio, muito ruim, muito tímido sobre um tema explosivo e sem um verdadeiro centro dramático. Tinha gostado muito do Estorvo, que o Ruy Guerra havia adaptado do romance de Chico Buarque, e fui ver Benjamin com o pé atrás. Vi duas vezes. Uma no Festival do Rio, quando não gostei, e outra em São Paulo, numa pré-estréia concorridíssima, na qual estava o próprio Chico, o que provocou uma histeria como poucas vezes vi na vida. Tive de ver o filme de pé, porque não gosto de sentar no chão e aí acendeu uma luzinha vermelha – êpa, é um filme mais palatável do que o Estorvo, não é tão radical, mas como a literatura do Chico o cinema de Monique começava a apresentar algumas preocupações de linguagem que me interessaram. Comecei a gostar da Monique em outras mídias. Fui ver, no teatro, Os Sete Afluentes do Rio Ota e nunca quatro horas passaram tão rápido na minha vida. Adorei, achei o trabalho da Maria Luiza Mendonça, uma atriz a quem admiro mas tem uma tendência ao excesso que poucos diretores sabem canalizar a favor dela (e dos filmes), uma coisa de louco, mas fiquei chapado principalmente com a iluminação. Acho até que usei alguma exibição de Benjamin ou Jenipapo na TV paga para falar da peça. Escrevi que Monique era a maior iluminadora do teatro brasileiro. Era um elogio, um baita elogio, mas não sei se ela soube (ou se o recebeu assim). Descobri depois que, para os outros, era uma coisa pejorativa, mas o que queria dizer é que se há um conceito na direção teatral da Monique ele está na luz. (Faço uma pausa. Não era o Abel Gance quem dizia que o cinema é luz? E quando se mede o tempo e a distância, em termos cósmicos, não é usando a luz como referência? E as religiões não apontam todas para a luz? Buda, Maomé e Cristo não são sempre representações de luz?) Na seqüência, ainda atordoado pela montagem do Rio Ota, fui ver o show da Marina no teatro do Ibirapuera e aí caí duro. Aquele final, em que a Monique abriu a parede móvel do teatro e a Marina, de branco, com seus acompanhantes, foi se afastando dentro da noite, no verde daquele jardim imenso, dramaticamente iluminado por canhões de luz, não era só uma homenagem da diretora a Gritos e Sussurros, que eu amo – foi principalmente uma das coisas mais belas que já vi, uma emoção estética tão grande que até arripio de lembrar. Minha percepção de Monique Gardenberg mudou e foi assim que fui ver Ó Paí Ó. Não li nada, não sabia nada – nem que a origem estava numa peça do Márcio Meirelles, do Olodum. Foi outra experiência que me deixou chapado. Impactado, é a palavra certa. Monique misturou as três mídias que são seus objetos de estudo e interesse, o cinema, o teatro e a música. Usou o carnaval não pelo folclore, mas porque naquele tempo e espaço ela consegue fazer, ou pelo menos tenta fazer, uma interpretação da sociedade brasileira. Quase como conseqüência disso, ela lança uma proposta, gostem ou não, de musical brasileiro. Vi o filme perplexo. Gostando e desgostando. Com a cabeça rodando com aquela explosão de musicalidade, colorido e sexualidade. E aí veio aquela cena… No próximo post eu continuo.