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Cultura » O padeiro que virou ‘sir’

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Luiz Carlos Merten

25 Agosto 2010 | 17h15

Não tive tempo ontem de postar nada. Pela manhã, tinha a capa de hoje do ‘Caderno 2’, a entrevista com a cineasta polonesa Agnieszka Holland, para redigir. Estreia amanhã a série ‘O Primeiro Ministro’, que Agnieszka formatou com a filha e a irmã – e foi um acontecimento na Europa. Surgiu a oportunidade de entrevistar a autora, o que fiz, pelo telefone. Agnieszka estava na sua casa em Paris. Conversamos em francês, foi ótimo. Na sequência da capa, pintou uma página de classificados e eu pude homenagear os 80 anos de Sean Connery, que ele comemora hoje. Confesso que tive muito prazer redigindo aquele texto, embora minha experiência pessoal com Connery não tenha sido das melhores. Entrevistei-o em Cannes, no ano de ‘Armadilha’. Caterina Zeta-Jones, em seu primeiro grande papel, havia sido ótima, mas o eterno 007 devia estar de saco cheio de falar com jornalistas. Tomei um choque quando me sentei e ele, sem a menor cerimônia, enfiou o dedo na boca e ‘escarafunchou’ para tirar algum resto de alimento. Chique pra cacete. Puta cara porco, meu. Aquilo foi só o começo. Connery comparou ‘Armadilha’ a ‘Ladrão de Casaca’ como divertimento ‘hitchcockiano’. Foi demais para mim. Disse que ele havia trabalhado com o próprio Hitchcock – a obra-prima doente ‘Marnie, Confissões de Uma Ladra’ – e devia saber que não tinha nada a ver. Aí, a coisa desandou, para consternação do grupo do qual participava. Mas ao redigir o texto o que me veio não foi o Sean Connery real, mas o que faz parte do meu imaginário, o do cinema. Vi ‘O Satânico Doutor No’ na estreia. Tudo bem que o mundo, os comportamentos estavam mudando nos anos 1960, mas vocês não têm noção da verdadeira revolução que o uso do sexo e da violência naquele filme trouxe para o cinema industrial da época. Connery formatou 007 e o fato de o agente ter licença para matar era algo impensável – no cinemão, só bandido mata por crueldade. O mocinho mata por necessidade. Bond não pensava duas vezes. Bang-bang. Estava liberado. E as mulheres… Ursula Andress saindo do mar com aquele biquíni (e aquela adaga na cintura). Claudine Auger, acho que a minha bondgirl favorita, em ‘007 Contra a Chantagem Atômica’. Só que Connery nunca se contentou em fazer só aquele personagem e construiu uma carreira notável em filmes de Sidney Lumet, Martin Ritt, Richard Lester, John Huston e outros grandes. ‘A Colina dos Homens Perdidos’, ‘Ver-te-ei no Inferno’ (a obra-prima ‘The Molly Maguires’), ‘O Homem Que Queria Ser Rei’, ‘Robin e Marian’. O cara foi o pai de Indiana Jones em ‘A Última Cruzada’ – quem mais teria autoridade para chamar Harrison Ford de ‘Júnior’? – e ganhou o Oscar de coadjuvante por ‘Os Intocáveis’, de Brian De Palma. Só mesmo a Academia de Hollywood! Tanto vagabundo de uma interpretação só ganhou o Oscar de ator e o Connery – tão bom e um grande astro, ainda por cima – tem de se contentar em ser melhor coadjuvante. Enfim, o blog festeja os 80 anos de Thomas Connery, que conhecemos todos como Sean. O cara era padeiro, virou sir. Não sei de vocês, mas o ‘meu’ Connery é o do filme de Martin Ritt, o mineiro que explode minas na Pensilvânia do século 19. ‘Ver-te-ei no Inferno’ é um clássico. Quem de vocês lembrou que a abertura foi a referência de Martin Scorsese para fazer ‘Os Bons Companheiros’? Connery deu uma parada com o cinema após o fracasso – de público – de ‘A Liga Extraordinária’. Está empenhado em escrever sua autobiografia. Imagino que terá muitas histórias para contar.

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