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O pacote de Ray (para o amigo Mauro)

Luiz Carlos Merten

17 Outubro 2012 | 13h08

Mauro Brider me pede que comente alguma coisa sobre a caixa da Versátil com DVDs de Nicholas Ray. Ele observa que o Robert Taylor de ‘A Bela do Bas Fond’ é o personagem rayniano por excelência. É manco, ‘l’homme blessé’, fica mais bonito (sonoro) em francês. O homem ferido é o personagem de Ray. Ferido no corpo, ocasionalmente. Na alma, na maioria das vezes. Talvez o post que estou acrescentando agora pareça surpreendente, não sei. Amo Ray, sempre amei, mas tenho a tendência a defender seus filmes de que ninguém gosta. Para expressar os problemas que teve com o produtor Samuel Bronston em ‘55 Dias de Pequim’, ele se reservou o papel do embaixador paralítico – quer metáfora maior da própria impotência perante o capital? Nos revolucionários anos 1960, lembro-me que o olhar de Ray sobre o imperialismo na China – em plena era do livro vermelho do camarada Mao – era considerado reacionário. Toda uma guerra apenas para que o militar, Charlton Hestoin, no desfecho, estenda sua mão para a garota – uma licença poética do autor, reproduzindo o célebre final de ‘Rastros de Ódio’, de John Ford. Hoje, tendo a achar que Ray estava era sendo profético. No mundo global que ele filmava – na Babel dos embaixadores –, a saída só podia ser individual. Por mais que acredite que um outro mundo é possível, não vejo muita mobilização nem organização hoje em dia. Joaquim Pedro estava certo em ‘Macunaíma’ – é cada um por si e Deus contra todos. Sempre me encantei com ‘55 Dias de Pequim’. As cenas iniciais são, talvez, a melhor representação da máxima rayniana de que o cinema é a melodia do olhar. Ray acreditava que os olhos são o espelho da alma, mas também que o fluxo dos olhares pode conduzir a montagem. E o filme é lindo de ver. Ray estudou arquitetura com Frank Lloyd Wright e trouxe para seu cinema as noções de espaço e décor. A Cidade Proibida, que ele reconstituiu na Espanha, é uma coisa de louco e, tanto quanto Charlton Heston e Ava Gardner, Flora Robson como a imperatriz e Robert Hellpman como o príncipe Tuan são esplendorosos. Ele era bailarino, obviamente gay, e a maneira como se move nos corredores palacianos constroi no imaginário do público o eunuco perfeito. Ela é genial no desfecho, filmada de cima, na antiga sala do trono. Vestida de camponesa, para fugir, repete – ‘The dinasty is finished’. Gosto muito da ‘ideia’ de Ray, de que foi um grande artista, o Rimbaud de Hollywood. Mas, infelizmente, são cada vez menos os filmes de Ray que considero grandes. Seu barroquismo lírico e a mistura flamboyant de gêneros criaram momentos fulgurantes, mas em comparação com o classicismo de Anthony Mann – Ray e ele seriam, para Godard, os maiores autores do mundo; um criando os personagens no interior, outro no exterior –, não são muitos os filmes de Ray que se mantêm. A obra de Samuel Fuller envelheceu melhor, para citar um exemplo. A de Richard Brooks também. Tenho me surpreendido com Jules Dassin, com filmes que achava menores, medíocres, e que hoje provam que estavam adiante de sua época (até na fase com Melina Mercouri). ‘Juventude Transviada’ impressiona mais por James Dean que pela direção, por mais belas e intensas que sejam as cenas no planetário. ‘Amarga Esperança’, They Lived by Night, no pacote da Versátil, antecipa ‘Bonnie & Clyde’, mas sustenta mal a comparação com a obra-prima de Arthur Penn. ‘Alma sem Pudor’, Born To Be Bad, outro filme do pacote, é um melodrama meio envergonhado – Ray não leva as convenções do gênero ao limite, como Douglas Sirk, para desmontá-las. E ‘A Bela do Bas-Fond’, que me fascina pelo mix de gângsteres e musical, tropeça no casal principal, Robert Taylor e Cyd Charisse. É um filme que poderia ser grande – poderia ter sido grande, como Marlon Brando choruminga para o irmão em ‘Sindicato de Ladrões’, de Elia Kazan –, mas não é. Se vocês me perguntarem quais os ‘meus’ Rays, continuam sendo, e acho que serão sempre, ‘Johnny Guitar’, ‘Delírio de Loucura’, ‘Jornada Tétrica’ (Wind Across the Evergleades, que começo!) e ‘55 Dias de Pequim’. Acho genial quando a amargurada baronesa, ou condessa, Ava Gardner diz para Charlton Heston que continue bebendo, que o uniforme vai mantê-lo de pé. Há ali uma compreensão da miséria humana que me derruba. No ‘Dicionário de Cinema’, Jean Tulard lembra a agonia de Ray, vítima de câncer, captada pela câmera de Wim Wenders em ‘Nick’s Movie’. Debilitado intelectualmente, terminal, ele luta para manter a dignidade. Tulard cria uma frase de efeito – Ray vira ali herói de si mesmo. Já era esse herói como o paralítico de ‘55 Dias’. Não obstante a eventual decepção que a revisão de seus filmes possa me provocar, e talvez por ela, Ray será sempre um de meus heróis. Ele tinha algo de viscontiano. Não era aristocrata como Luchino, mas era um homem nobre e consciente da própria autodestruição. Um personagem trágico por definição.