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Luiz Carlos Merten

08 Setembro 2010 | 15h18

Jean-Luc Godard invocou um problema grego para fugir à coletiva de seu ‘Filme Socialisme’ em Cannes, em maio. Gostei bastante (do filme), especialmente do final – vocês vão perceber, quando virem –, mas confesso que me surpreendi com a edição de junho de ‘Cahiers du Cinéma’, que, somente agora, chegou a bancas selecionadas e está à venda na cidade. ‘Cahiers’ dedica páginas e páginas a ‘Filme Socialisme’, transformando o filme de Godard no evento do ano – e olhem que a revista adora Apichatpong Weerasethakul. A capa, inclusive, celebra sua Palme de rêve, com ‘Oncle Bonmee’. Mas não é para falar disso que estou postando. Godard ia receber um Oscar honorário da Academia de Hollywood, ou melhor, vai. Mas ele desistiu de ir à cerimônia. Quem informa é a própria mulher de Godard, Anne-Marie Miéville. Ela diz que ele até se animou, mas, aos 79 anos, desistiu ao saber que seu Oscar seria entregue três meses antes, numa festa fechada. ‘Não é um Oscar de verdade’, sentenciou Godard, e tem razão. Godard, dizem seus críticos (exegetas?), sempre teve uma relação de amor e ódio com o cinema norte-americano. Tenho para mim que sempre foi muito mais uma relação de amor. Godard sempre gostou de westerns (Anthony Mann), filme noir (Preminger) e colocou nas nuvens pequenos grandes diretores que admiro (Don Weiss). Das porcarias que ele não gosta ou nunca defendeu, também fujo. Um Oscar para Godard, recebido pelo próprio, colocaria o mundo do cinema de pernas para o ar. Já pensaram toda aquela Hollywood frívola e glamourosa aplaudindo o cara de pé? E eles iam, tenho certeza. Independentemente de se gostar ou não dos filmes dele, só louco para negar a evidência de que Godard mudou a face do cinema na segunda metade do século 20. A academia errou. Se era para homenagear Godard, que fosse na grande festa de março, não agora, a portas fechadas.