Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » O orelhudo de ‘Tulpan’

Cultura

Luiz Carlos Merten

02 Abril 2010 | 13h29

Gostei bastante de algumas entrevistas que tenho feito ultimamente, pelo telefone. Uma delas foi com o diretor de ‘Tulpan’, Sergei Dvortsevoy, que estava em Moscou e me disse que divide seu tempo entre a capital da Rússia e o Casaquistão, onde rodou seu belo filme. Havia assistido a ‘Tulpan’ em Cannes, há dois anos. É tradição do festival reprisar o vencedor da mostra Un Certain Regard. O júri presidido por Pascale Ferran, diretora de ‘Lady Chatterley’, escolheu o filme de Dvorstesevoy, que me encantou. Achei que tinha a cara da Mostra. Para o caso de algum de vocês não ter lido a entrevista publicada no ‘Caderno 2’, o diretor me explicou a gênese do projeto. Dvortsevoy era engenheiro de bordo na Aeroflot. Fazia a rota interna do Casaquistão. Todo dia voava sobre aquelas estepes e via do alto os minúsculos rebanhos de ovelhas. Quando se tornou cineasta, fez um documentário sobre os grupos nômades que habitam a região. A origem ou, pelo menos, a experiência documentária do diretor contaminou sua estreia na ficção e surgiu a história do rapaz que volta para casa, quer ser pastor e precisa escolher uma noiva para constituir família. Dvortesevoy inspirou-se num amigo que tinha orelhas grandes – e problemas com as mulheres, por isso – para tensionar a escolha de seu herói. A escolhida o rejeita, por causa das orelhas. O filme é lindo, o jovem ator é maravilhoso e eu conversei longamente com Dvorstevoy sobre a importância da paisagem. Em Monument Valley, no ponto chamado de ‘John Ford’s View’, matutava como era posicionar a câmera e escolher o ângulo num lugar daqueles. Em ‘Tulpan’, o problema me parecia maior ainda. Só uma imensa extensão plana. A cidade mais próxima ficava a 500Km e Dvortsevoy podia girar a câmera em ângulo de 180 graus, na certeza de que só havia o vazio. A dúvida – onde colocar a câmera? Ele contou que tinha uma diretora de fotografia. No início, não tinham eixo nem referência, mas, aos poucos, foi ela quem o ensinou a escolher os ângulos, em função do movimento do sol. Gostei demais de ‘Tulpan’. A outra entrevista fica para o próximo post. Foi com o israelense Haim Tabakman, diretor de ‘Pecado da Carne’, que está estreando hoje.