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O opus final de John Huston

Luiz Carlos Merten

10 Março 2010 | 12h31

Queria fazer uma matéria sobre ‘Clamor do Sexo’ na página de hoje de DVD, no ‘Caderno 2’. O clássico de Kazan com Natalie Wood e Warren Beatty é o filme definitivo sobre o amor teen. É um dos meus cults (e também de muita gente). Embora produzido e distribuído pela Warner, o filme está sendo resgatado pela Lume e eu até tentei, nos telefones de que disponho, confirmar a data em que estará nas lojas. Não consegui. Terminei optando por escrever sobre ‘Os Vivos e os Mortos’, de John Huston, lançamento da Cult Classic, que, afinal, já chegou às lojas dia 5 (ou pelo menos era a previsão). Já contei para vocês – fui editor, por um breve período, de um jornal em Porto. Não era do tipo que trabalha com agenda nem que preparava as pautas com antecedência. Cada dia era um dia. Meu prazer (adrenalina? Vício?) sempre foi perseguir a pauta na hora. Claro que eu não era um bom editor e era o terror da equipe. Certo dia, não pintou pauta nenhuma, estava com as páginas abertas, em branco, e começava a desesperar. Chegou a notícia da morte de John Huston. Fiz a matéria voando e depois me bateu um vazio. Se Huston não tivesse dançado, talvez houvesse eu dançado. Li muito, mais tarde, sobre as circunstâncias da filmagem de ‘Os Vivos e os Mortos’. Huston estava com 81 anos e muito debilitado. Boa parte do tempo, ele estava em cadeira de rodas, com um assistente do lado que carregava o balão de oxigênio, a que recorria para enfrentar as crises de respiração. Nenhuma seguradora queria bançar o projeto e Huston só o concluiu porque Karel Reisz se prontificou a ficar a postos, no set, durante toda a filmagem, como stand by. Anjelica Huston, que faz Gretta, jura que Reisz não dirigiu nada e acrescenta que seu pai, apesar da precariedade física, era o espírito mais alerta naquele set. Huston estava realizando um sonho. James Joyce foi uma das influências marcantes de sua juventude – da de sua geração, como ele dizia. Seus últimos filmes já vinham tratando da morte – ‘O Homem Que Queria Ser Rei’, ‘À Sombra do Vulcão’. Mas, ao adaptar o conto de ‘Os Dublinenses’, ele já sabia que seria seu opus final? O filme termina com a voz do narrador superpondo-se à paz do cemitério. A última palavra que se ouve é ‘dead’ (morto). Entre 1941 e 87, entre a estreia com ‘Relíquia Macabra’ (O Falcão Maltês) e o fecho com ‘Os Vivos e os Mortos’, a obra de John Huston é toda ela uma reflexão sobre os temas da validade do esforço e da inevitabilidade do fracasso. ‘Cahiers’, na fase de capa amarela – Truffaut & Cia. –, o desprezava. Huston não teria ‘estilo’, portanto não seria um autor. Ele dizia que fazia os filmes movido pelo respeito às histórias que queria contar, adaptando-se a cada uma delas. ‘Os Vivos e os Mortos’ mostra essas duas irmãs que reúnem um grupo para um sarau. As pessoas conversam, ouvem música, jantam. Lá fora há um frio de matar. Neva. Entre os convidados estão Gretta (Anjelica) e o marido. Parece tudo, qual é a melhor definição, convencional. Previsível. Mas Gretta ouve uma canção que, proustianamente, como se fosse uma madweleine, lhe provoca uma lembrança. Era cantada por um jovem que a amou no passado. Ela conta a história desse amor. Fala nele com uma intensidade que desperta – o quê? A Inveja? – no marido. Ele tem a consciência do seu fracasso pessoal, porque nunca foi nem vai ser amado daquele jeito. E caem os flocos da neve, o cemitério vira um lençol branco. Espero não tirar a graça de ninguém contando isso. Três anos antes, Anjelica Huston ganhara o Oscar de coadjuvante num filme também dirigido por seu pai, ‘A Honra do Poderoso Prizzi’. Pouca gente se lembra – Anjelica é hoje respeitadíssima como atriz (e até diretora) –, mas sua estreia foi bisonha. Em 1969, John Huston colocou-a, com Assaf Dayan, filho do famoso general israelense, no elenco de ‘Caminhando com o Amor e a Morte’. A crítica caiu matando na dupla. Exatamente 15 anos depois, Anjelica deve ao pai o privilégio de mostrar que ela era uma verdadeira atriz e sabia representar, em ‘Prizzi’. Mas foi ‘Os Vivos e os Mortos’ que marcou a parceria definitiva dos dois. Tenho revisto – em Paris, que chique – alguns filmes de Huston. ‘Relíquia Macabra’, ‘O Diabo Riu por Último’, ‘O Passado não Perdoa’, o próprio ‘Os Vivos e os Mortos’, todos em cópias novas, zero bala. Huston era um diretor que me desconcertava, por sua diversidade. Virou um dos meus amores, o velho, mas o Huston de que gosto talvez não seja o da maioria – ‘Os Pecados de Todos Nós’, ‘Roy Bean, o Homem da Lei’, ‘À Sombra do Vulcão’ (que tanto irrita os ‘lowrynianos’) e ‘Os Vivos e os Mortos’. E houve o Huston ator, genial em ‘Chinatown’, de Polanski. Só pelo – dêem-se um presente, re)vejam a aventura joyceana do mestre.